Espírito Santo: terceira pessoa divina? – Parte 1

Esta reflexão eu tive, ainda antes de meus 30 anos, depois de já ter sido expulso de uma igreja e ter ouvido uma aula sobre a “Santíssima Trindade”. Alguma coisa estava errada naquele ensinamento. Não entrava…

Você já percebeu que pastor nenhum consegue explicar essa tal de “trindade” de forma satisfatória? Todos eles se enrolam ao tentar demonstrar o tal do “três em um”: “são três pessoas divinas, mas só existe um Deus”; “é um que se manifesta de três formas”; “não, não somos politeístas!”; e por aí vai…

            Certa vez ouvi um pastor dizer que a trindade era como os estados físicos da água: assim como esta pode se apresentar na forma líquida (água), gasosa (vapor) e sólida (gelo), e não deixa de ser a mesma substância, da mesma maneira aconteceria com Deus.

Essa é, na verdade, a tese por trás do Credo Niceno para Deus e Jesus. A divindade de Jesus foi consagrada no Concílio de Nicéia, no ano 325 d.C. O Credo de Nicéia era uma breve declaração de fé, que resumia as crenças ortodoxas que constituíam o âmago dos ensinamentos da Igreja:

“Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus. Nascido do Pai antes de todos os séculos. Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Gerado, não criado. Consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas”.

Como se observa, um é “consubstancial” (mesma substância) ao outro.

Depois adicionaram mais um, o Espírito Santo, que passou a fazer parte de tal credo em 381 d.C.

Bem, vamos testar essa hipótese.

 

1. Testando a hipótese da consubstancialidade Deus-Jesus

 

Vamos testar, biblicamente, Deus e Jesus. Se concluirmos que ambos são um só, então a tese da trindade ganha força e teremos que, em seguida, testar um deles com o Espírito Santo. Todavia, se a conclusão for a de que não são um, por decorrência lógica, a tese da trindade já cai por terra, sem nem precisarmos nos voltar para o Espírito Santo (apesar de que faremos isso assim mesmo, mais adiante).

Em momento algum, nos Evangelhos, vemos Jesus dizer, inequivocamente, que ele era o próprio Deus. Ao contrário, inúmeras vezes se dizia “Filho do Homem” (em Mateus, 30 vezes; em Marcos, 13 vezes; em Lucas, 26 vezes; e em João, 11 vezes) e, algumas poucas vezes, “Filho de Deus” (em João, 3 vezes). Ser Filho de Deus e Deus é a mesma coisa? Ou seja, é possível ser Pai e Filho ao mesmo tempo?

Algumas evidências bíblicas demonstram que ambos eram duas pessoas distintas. Em Colossenses 1:15-17, diz que Jesus é o “primogênito de toda a criação”. Ora, “primogênito” significa “aquele que é gerado antes”. Conclui-se do texto bíblico, portanto, que Jesus foi gerado antes de qualquer coisa, como comprova e ratifica o versículo 17. É possível ser Gerador e Gerado ao mesmo tempo?

Outra evidência de que Jesus não é Deus é que a Bíblia nos apresenta Jesus, várias vezes, orando a Deus, ao Pai, mas nunca nos apresenta o Pai orando a Jesus. Além disso, a Bíblia mostra hierarquia entre ambos: no Getsêmani, poucos momentos antes da prisão, Jesus pediu ao Pai que, se possível, o livrasse daquela missão (mas prosseguiu por obediência); em Mateus 24:36 está escrito que nem mesmo Jesus sabe o dia e a hora da grande tribulação (ou seja, demonstra claras diferenças de conhecimento entre Pai e Filho); em João 7:28, Jesus diz que o Pai é maior do que ele (ou seja, demonstra claras diferenças de poder entre Pai e Filho); e, em Mateus 12:32, Jesus diz que blasfêmia contra ele próprio é perdoável, mas contra o espírito de Deus, não!

Em Marcos 9:7, Deus diz aos discípulos de Jesus: “Este é o meu Filho amado: a ele ouvi”. Idem em Lucas 9: 35 (que acrescenta: “Este é […] o meu eleito”). Idem em Mateus 17:5 (que acrescenta: “em quem me comprazo”). Fenômeno semelhante aconteceu no batismo de Jesus. Ora, estamos falando de uma mesma pessoa? Jesus estava na Terra e a voz veio do céu?! É possível ser Eleitor e Eleito ao mesmo tempo? Ser amante e amado?

            E por aí vai. A Bíblia deixa muito claro que Deus e Jesus são duas pessoas distintas, e que este está num nível hierarquicamente inferior Àquele. Pelas informações fornecidas pela Bíblia, não há como dizer – a não ser numa linguagem metafórica muito forçada – , que Jesus é uma das manifestações de Deus, e que ambos são apenas um. Portanto, ambos não podem ser a mesma substância (como a água) se manifestando de duas formas distintas (como vapor e gelo). Pode o vapor ter menos riqueza intrínseca do que o gelo, já que são a mesma substância? Pode o vapor ter mais ou menos conhecimento do que o gelo, se são a mesma substância (Mt 24:36)? Pode o gelo se ofender e o vapor não (Mt 12:32)? Se são a mesma substância, como uma se diz maior do que a outra (Jo 7:28)?

            Ora, resta demonstrado, biblicamente, que Deus e Jesus não são a mesma pessoa, e que, portanto, ambos não são um se manifestando de duas formas. São, simplesmente, dois: um gerado pelo outro, um submisso ao outro, um eleito pelo outro. Se não podemos falar em “dois em um”, muito menos em “três em um”!

            Como fica o Espírito Santo nessa história?

            Qualquer pessoa que leia a Bíblia do início ao fim vai perceber algo, no mínimo, perturbador: dois dos mais importantes personagens do Cristianismo pregado por aí – Satanás e o Espírito Santo – só são desenvolvidos no Novo Testamento (NT). São personagens que, repentinamente, pulam de pára-quedas na narrativa bíblica, e o leitor desavisado fica sem saber o porquê, dado que o texto bíblico não parece pedir pela presença deles. Falaremos de Satanás em outro post. Por ora, fiquemos com o segundo personagem.

A figura do Espírito Santo só aparece como uma pessoa divina dotada de autonomia no NT. Os judeus, cuja bíblia se resume ao Antigo Testamento (AT), desconhecem esse sujeito. Todas as vezes em que a expressão “Espírito de Deus” aparece no AT (sequer encontramos a expressão “Espírito Santo”, talvez uma única vez em Isaías, mas com um sentido diferente do que encontramos no NT), se refere a dons espirituais dados por Deus ou à santificação. Por que esse Espírito aparece dotado de vontade própria e de sentimentos próprios no NT se isso não acontece no AT?!

            Se essa terceira pessoa existia desde o início, por que foi omitida? Algum espertinho poderia rebater: Mas Jesus também existia desde o início e só aparece no NT! Errado! A Bíblia anuncia Jesus desde o início. É só fornecer interpretação sistêmica aos seguintes trechos: “Deus”, em Gn 1:1, no original hebraico, está na forma plural (Elohim); o homem, em Gn 1:26, é criado “à nossa imagem” (plural); Deus ordena a criação do tabernáculo em Êxodo cuja disposição dos móveis (altar de bronze, pia de bronze, candelabro, mesa dos pães, altar de incenso e arca) forma o desenho de uma cruz; em Levítico é ensinado um ritual de sacrifício de que seria vítima um homem (Isaías 52:13 – 53); há o anúncio de um redentor-rei, da casa de Davi (Gn 3:15 e Miquéias 5:2), que é Senhor em relação ao próprio rei Davi (Salmos 110:1), etc.

Tudo isso se encaixa com o já citado texto de Colossenses 1:15-17. E o que é ainda mais interessante: Salmos 62:11 diz: “Uma vez falou Deus, duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus”. É um trecho literariamente poderoso, e diz que existem duas vozes, o que fecha com as formas plurais vistas no livro de Gênesis.

Portanto, numa interpretação sistêmica do AT, temos duas vozes, e não três!

Não existe uma terceira pessoa chamada Espírito Santo. Vamos testar essa hipótese?

 

2. Testando a hipótese do Espírito Santo como terceira pessoa divina

 

A divindade de Jesus, como já dito no início deste texto, foi consagrada no Concílio de Nicéia, no ano 325 d.C.  Esse credo é até hoje declamado em missas cristãs. Observa-se que ele segue a idéia já presente em Colossenses 1:15-17. E ratifica a natureza divina de Jesus, dizendo ser ele também Deus, para afastar a tese do arianismo, em voga na época, que dizia que Jesus não era feito da mesma substância divina do Deus-Pai, que era inferior a Ele, e apenas trazido à existência por Sua vontade. Na verdade, como vimos no item 1, o que Ário defendia é exatamente o que informa a Bíblia! Como diria Montesquieu, no século XVIII, em relação às leis: “basta ter olhos”!

O triunfo da ortodoxia de Nicéia foi sacramentado no Concílio de Constantinopla (ano 381), novamente no contexto de um importante evento político-religioso — a oficialização do cristianismo católico como a religião do Império Romano, no ano 380, pelo imperador Teodósio I. Os bispos reunidos na capital imperial reafirmaram as declarações de Nicéia, esclarecendo melhor alguns pontos obscuros e, desta vez, fazendo uma afirmação explícita da personalidade e divindade do Espírito Santo. O novo credo assim produzido ficou conhecido como Credo Niceno-Constantinopolitano.

Assim como o arianismo não partilhava da tese de que Jesus era Deus, o macedonismo não partilhava da tese de que o Espírito Santo era Deus. Macedônio, bispo de Constantinopla no século IV, afirmava que o termo Espírito designava os dons da graça derramados sobre os homens. Macedônio baseava-se parcialmente em dois ou três textos bíblicos, bem como na ausência de referências à divindade do Espírito Santo no Concílio de Nicéia. Em Nicéia, frise-se, não foi dada nenhuma explicação sobre o Espírito Santo.

Tornando-se acirrada a questão, o I Concílio do Constantinopla, reunido em 351, expressou-se da seguinte forma: “Cremos também no Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida, que procede do Pai; que com o Pai e com o Filho deve ser adorado e glorificado e que falou per meios dos profetas”. É o que encontramos na atual redação do Credo Niceno-Constantinopolitano, em razão da inclusão dessas frases, que ensinam a consubstancialidade do Espírito Santo em relação ao Pai e ao Filho, na unidade da Trindade, em oposição ao pensamento dos macedonianos.

Quem está certo? Vamos ao teste da hipótese.

Preliminarmente, é importante ressaltar que a palavra “trindade” não existe na Bíblia. Estamos tratando de uma doutrina (uma tese desenvolvida ao final do século IV de nossa era), que defende se fundamentar na Bíblia.

Todos sabemos que o NT foi originalmente escrito em grego. Poucas pessoas sabem que, no original grego, fala-se, em várias passagens, deum Espírito Santo” (pneuma agiou). Segundo ensina o filósofo e teólogo Carlos Torres Pastorino, a língua grega não possuía artigos indefinidos. Quando a palavra era determinada, empregava-se o artigo definido “ho, he, tou”. Quando era indeterminada (caso em que nós empregamos o artigo indefinido em português), o grego deixava a palavra sem artigo. Então, quando não aparece em grego o artigo, temos que colocar, em português, o artigo indefinido: “um” espírito santo, e nunca traduzir com o definido: “o espírito santo”.

Isso explica porque os primeiros cristãos, das primeiras décadas após a morte de Cristo, não conheciam essa tal de “Santíssima Trindade” e esse tal de “Espírito Santo” como  uma pessoa divina. Paulo, por exemplo, em 1 Co 6:19, disse que somos templos deum santo espírito” (como está no original grego – ê ouk oidate oti to sôma umôn naos tou en umin agiou pneumatos estin ou echete apo theou kai ouk este eautôn). Bem diferente da tradução, que diz “(d)o Espírito Santo”.

Já a Vulgata, tradução latina da Bíblia, feita por Jerônimo (340-420 d.C), complicou ainda mais a questão, pois o latim não tem nenhum dos dois artigos! Se há expressões sem o artigo, ou seja “en pneumati agiou” ou “en pneumati theou” a tradução deveria ser “um” e não “o”. Claro que, tenho a Bíblia sido traduzida para o latim na época em que o Credo Niceno-Constantinopolitano se formou, não poderíamos esperar imparcialidade do tradutor, que era um bispo! Os tradutores das Bíblias atuais, burlando as regras gramaticais e impondo sua crença, dizem, face às conveniências e tradições de suas igrejas, que se trata “do” Espírito Santo!

Vamos analisar mais a fundo a questão.

Pneuma Agiou = “Espírito Santo”. Emprega-se o adjetivo agiou ao lado do substantivo pneuma. Sistematicamente, o substantivo precede: pneuma agiou. Vamos ver como a expressão aparece nos quatro Evangelhos e em Atos:

1)    Tou Pneuma Tou Agiou: que equivale a o Espírito Santo”. Exemplos: Mt. 12:32; Mc. 3:29; 12:36; 13:11; Lc. 3:22; 10:21; At. 1:16; 2:33; 5:3, 32; 7:51: 10:44, 47; 11:15; 13:2; 15:8, 28; 19:6; 20:28; 21:4; 28:25. Em João aparece uma só vez, e assim mesmo em apenas alguns códices tardios, havendo forte suspeição de haver sido acrescentado posteriormente (por exemplo, em Jo 14:26).

Em grego transliterado, alguns exemplos:

Mateus 12:32: kai os ab=ean ts=an eipê logon kata tou uiou tou anthrôpou aphethêsetai autô os d an eipê kata tou pneumatos tou agiou ouk aphethêsetai autô oute en ats=toutô tô b=nun aiôni oute en tô mellonti.

 Marcos 3:29: os d an blasphêmêsê eis tou pneuma tou agion ouk echei aphesin eis ton aiôna a=alla tsb=all enochos estin aiôniou a=amartêmatos tsb=kriseôs.

2)    Pneuma Agiou (indefinido, sem artigo): que equivale a “um Espírito Santo”. Exemplos: Mt. 1:18, 20; 3:11; Mc. 1:8; Luc. 1:15, 41, 67; 2:25; 3:16; 4:1; 11:13: At. 1:2, 5: 2:4; 4:8, 25; 7:55; 8:15, 17, 19; 9:17; 10:38; 11:16, 24; 13:9, 52; 19:2; Jo 20:22.

Em grego transliterado, alguns exemplos:

Mateus 1:18: tou de iêsou christou ê a=genesis tsb=gennêsis outôs ên mnêsteutheisês tsb=gar tês mêtros autou marias tô iôsêph prin ê sunelthein autous eurethê en gastri echousa ek pneumatos agiou.

Mateus 1:20: tauta de autou enthumêthentos idou aggelos kuriou kat onar ephanê autô legôn iôsêph uios ab=dauid ts=dabid mê phobêthês paralabein a=marian tsb=mariam tên gunaika sou to gar en autê gennêthen ek pneumatos estin agiou.

Mateus 3:11: egô men tsb=baptizô umas a=baptizô en udati eis metanoian o de opisô mou erchomenos ischuroteros mou estin ou ouk eimi ikanos ta upodêmata bastasai autos umas baptisei en pneumati agiou ats=kai ats=puri.

3)    Tou Agiou Pneuma (na forma invertida): que equivale a “o Santo Espírito”. Exemplos: Lc. 12:10, 12; At. 1:8: 2:38; 4:31; 9:31: 10:45; 13:4; 16:6.

Em grego transliterado:

Lucas 12:10: kai pas os erei logon eis ton uion tou anthrôpou aphethêsetai autô tô de eis tou agion pneuma blasphêmêsanti ouk aphethêsetai.

Os casos mais importantes são onde encontramos pneuma agiou com o artigo ou sem o artigo. Os contextos têm coisas preciosas para nos ensinar.

 

a)    “O Espírito Santo”:

 

Em Mt 12:32, todo o contexto se refere ao espírito de Deus pousado sobre Jesus mencionado no versículo 18. É um espírito definido: o espírito de Deus, aquele mesmo mencionado em Gn 1:2.

Antes de continuarmos, alguns breves comentários mostram-se importantes aqui.

Quando Moisés perguntou a Deus qual o Seu nome (Ex 3:13), Deus respondeu, no original hebraico: ehyeh aser ehyeh. A tradução entre nós ficou como “Eu sou o que sou”. Jack Miles ensina que o original continha apenas consoantes (hyh sr hyh). Mudando apenas uma letra, a terceira palavra dessa frase pode ser transformada numa forma da antiga raiz hebraica hwh, da qual provém o nome yahweh (a forma como Deus se apresenta ao homem em Gn 2:4). No alfabeto hebraico, a diferença gráfica (escrita) entre y e w é quase nenhuma. Assim, segundo o exercício de Miles, bastaria acrescentar vogais diferentes, fazendo com que se leia ehyeh aser ahweh, e a semelhança da última palavra com yahweh ficaria óbvia.

O que significaria ehyeh aser ahweh? Segundo estudiosos do hebraico, a raiz hwh é arcaica, e o mais provável é que signifique “tornar-se”, e, quando usada como verbo causativo, como no nome yahweh, significaria “fazer tornar-se” ou “fazer acontecer”, ou, simplesmente, “agir”. A sentença acima significaria, portanto, “Eu sou o que faço” ou “Eu Ajo”. Como todo o AT demonstra, Deus de fato é definido por aquilo que faz. É esse sentido que dá substância à expressão “espírito de Deus”, quando aparece em todo o AT. Como já dissemos antes, não existe “Espírito Santo” no AT, e mesmo quando aparece “espírito de Deus”, a Torah não usa a palavra “espírito” em maiúscula. Ou seja, não é nome próprio!

Nos trechos em que o “espírito de Deus” aparece, como em Jz 3:10, 6:34, 11:29, 1 Sm 10:9-10, 16:13 etc., ele está sempre relacionado ao agir do homem conforme os planos de Deus. Ou seja, o espírito é apresentado como uma extensão da ação de Deus, do “Eu Ajo”. A passagem de Nm 11:25-26 é curiosa: demonstra que Deus dava e tirava seu espírito como lhe aprouvesse. Tal passagem, ao lado de tantas outras, vai contra a idéia de um espírito como pessoa, pois não se percebe qualquer indício de vontade própria nele (muito pelo contrário!).

Portanto, a forma como o AT apresenta o “espírito de Deus” é aquela em que Paulo o apresenta em 1Co 12:7-11. Ou seja, são dons dados por Deus. É assim que se deve entender o espírito no NT, conforme informa o original grego, e conforme demonstraremos no restante deste texto.

Voltando o trecho de Mt 12:32, blasfemar contra o espírito santo de Deus é blasfemar contra a pessoa de Deus, contra o agir de Deus, e tal alerta de Jesus deriva do primeiro mandamento (Ex 20:2-3): “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito [novamente Deus se definindo pelo que faz], da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim”.

A mesma explicação se aplica aos textos de Mc 3:29 e Lc 3:22. Mc 12:36 fala de uma revelação de Deus a Davi. Mc 13:11, seguindo a mens legis do AT, pode ser assim lido, em sua parte final: “não sois vós os que falais, mas o Eu Ajo”. Lc 10:21 afirma claramente uma identidade entre Deus-Pai e o espírito santo. É a presença do espírito de Deus em Jesus que proporciona essa exultação, mesma presença que deu revelação a Davi (Mc 12:36 e Sl 110:1), pois assim como a Bíblia diz que Deus amava seu Filho, também diz que Ele amou Davi, a ponto de se apresentar, pela primeira vez, como “Pai” para a sua descendência (II Sm 7:14).

Em At 1:16, Pedro faz referência a outra revelação de Davi (Sl 41:9), equivalente àquela já referida de Sl 110:1.

At 2:33 refere-se à promessa dos dons espirituais (1Co 12:7-11), para que a obra que uma vez fora executada por homens como Moisés, Josué, Davi etc., e depois por Cristo, tivesse prosseguimento nas mãos dos apóstolos (pouco adiante, no versículo 38, a expressão aparece invertida – “do santo espírito” –, o que é uma referência clara ao espírito de Deus, mencionado inclusive por Davi, na forma invertida, em Sl 51:11).

Comparar At 5:3 a At 5:4. O texto é claro ao dizer que mentira ao “Espírito Santo” é mentira a Deus.

At 10:44 e 47 mostram um episódio em que as pessoas ansiavam por receber o espírito de Deus, que é aquele que ungia reis e profetas no AT (1 Cr 16:22 – “não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas”). Após a morte de Cristo, Deus seleciona novos homens para dar prosseguimento à sua obra – ao seu agir –, após “400 anos de silêncio” (entre os últimos eventos do AT e o início do NT) em Israel, período em que não apareceram profetas ungidos.

Observa-se que em todas as passagens em que “Espírito Santo” aparece com o artigo definido (“o Espírito Santo”), o contexto informa que se trata de Deus, e que é possível se aplicar o mesmo sentido em que a palavra “espírito” aparece no AT. Percebe-se que a Bíblia, em nenhum momento, pede por uma “terceira” pessoa divina. E isso é ainda mais reforçado nas outras passagens, quando a expressão aparece sem o artigo definido.

 

b)    “Um Espírito Santo”:

 

Mt 1:18-20 fala de um espírito santo, uma tarefa específica, um dom: dar à luz sem a correspondente conjunção carnal.

Mt 3:11 é uma belíssima passagem no original grego. Uma pena perder sua força e sua mensagem na tradução. Ao falar em um espírito santo, em sua parte final, o texto impõe uma diferença clara entre o Espírito pousado sobre Jesus (mencionado em Mt 12:18, Lc 10:21 etc.) e aquele que é prometido às pessoas em geral. É uma passagem que afeta frontalmente a doutrina do Espírito Santo como terceira pessoa divina. Nunca o Espírito que estava em Jesus (literalmente, “o Espírito de Deus”, como referido nas passagens que usam o artigo definido) era o espírito que estaria nos homens (este relacionado a dons espirituais, ao “agir” de Deus). Deus, segundo o texto grego, literalmente habita em Jesus, Seu Filho (o que reafirma a sua autoridade), mas nunca, literalmente, habitou no resto da humanidade (admitir que o próprio Deus venha a se manifestar num ser humano é, inclusive, inadmissível no Judaísmo). Quando a Bíblia fala em “Espírito Santo” em relação ao homem, sempre está ausente o artigo definido: a presença de Deus no homem se dá por meio de dons espirituais, pois o que Ele quer do homem é que aja no mundo, obre segundo seus propósitos. E é exatamente isso o que já trazia o AT, em passagens como Isaías 42:5: o sopro da vida – ruach (Gn 2:7) é para o homem ser e estar na terra; o espírito é para os que nela andam (ou seja, para os que atuam).

Mc 1:8 repete o que já traz Mt 3:11, e At 1:2 (“mandamentos por intermédio de um espírito santo aos apóstolos”) e At 2:4 (no dia de Pentecostes, “todos ficaram cheios de um espírito santo”) confirmam. E At 2:4, assim como em Mt 1:18-20, logo em seguida fala do que se trata esse espírito que desceu: dom de variedade de línguas (1Co 12:10), assim como Maria havia recebido o dom de milagres (1Co 12:10).

Lc 1:15 é mais um reforço. Veja-se que se está falando de um homem comum (João Batista). Com Jesus, a linguagem usada foi totalmente distinta (Mt 3:16; 12:18). E as seguintes passagens vão no mesmo sentido: Lc 1:41 e 67; 2:25; 11:13; At 4:8; 7:55.

Lc 4:1-2 traz algo curioso e fantástico. Um espírito guiou Jesus para o deserto e ele foi tentado pelo “diabo”. Por que essa passagem não adota a linha das citadas anteriormente, segundo as quais Jesus sempre estava cheio “do Espírito Santo” de Deus? Neste, ele está cheio de “um espírito santo”! Ora, o texto grego está tratando aqui Jesus como um homem comum! E ele foi tentado logo em seguida! Tentado por seus próprios impulsos humanos e carnais. Foi a primeira vez em que Jesus sentiu na pele o peso da carnalidade humana! É uma belíssima passagem, mas que se perde na tradução.

Por fim, comparemos At 2:4 com Jo 20:22.  Depois que aparece ressurrecto aos discípulos, Jesus sopra sobre eles e lhes diz: “Recebei um espírito santo”. O ciclo aqui tratado se fecha; inicia-se a missão apostólica. E o texto, novamente, fala, em seguida, de que dom espiritual se trata: o de perdoar pecados (v. 23).

A título de conclusão, percebemos, em face do todo o exposto, que o texto original grego é uma grande apologia ao poder e à autoridade de Jesus, único digno e legítimo de receber o Espírito do Pai. O que os cristãos fazem, ao criar nesse Espírito uma terceira pessoa, é também desejar essa autoridade e esse poder. Por isso a Igreja solidificou tal crença com o Credo Niceno-Constantinopolitano: é um modo de igualar Jesus e seus apóstolos, levando às últimas conseqüências a doutrina da kenosis (o esvaziamento de Cristo – Filipenses 2:7). Não é por outra razão que as cartas de Paulo respondem por quase todo o cânon neotestamentário: dos 27 livros que compõem o NT – selecionados como “divinamente inspirados” (Tertuliano) –, 14 foram escritos por Paulo (se considerarmos Hebreus de sua autoria). Ou seja, mais de 50%! Por que essa composição enviesada, se sabemos que vários livros, hoje chamados de “apócrifos”, estavam disponíveis na época e foram descartados?

Uma resposta possível é: a tese de que o mesmo Espírito que estava em Jesus poderia também habitar o homem é de Paulo. Tese, frise-se, de grande valia para a Igreja (seja ela católica ou protestante).

Passaremos a ela no próximo post.

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