Há sentido no julgamento de Deus?

A bíblia diz que Deus julgará a todos no juízo final. Bem, há algumas divergências doutrinárias: uns dizem que apenas os condenados serão julgados, dado que os salvos já estariam “justificados” pelo sangue de Cristo. Mas o ponto é o seguinte: Deus poupará, seja lá para o que for, apenas uma pequena parte da humanidade, e destruirá o resto. Em seu tribunal celestial, julgará e condenará aqueles que não seguiram seus mandamentos e aqueles que não tiveram fé. Isso tem algum sentido? Os avanços atuais da neurociência dizem que não!

 

Até bem pouco tempo, acreditava-se que a nossa mente era uma tábula rasa, ou seja, um espaço vazio que se encheria com a experiência da vida. Assim, acreditava-se que os seres humanos tinham um potencial igual para prosperar se lhes fossem dadas a criação e as oportunidades certas. O próprio liberalismo se fundou sobre essa idéia. É uma crença otimista na possibilidade de refazer tanto a natureza humana como a vida social humana, uma visão segundo a qual a criação e a educação dos filhos poderiam atenuar ou impedir patologias sociais, construir bons adultos, homens íntegros etc. Você também pensa assim? Pois a neurociência vem descobrindo que não é bem assim.

 

Se assim fosse, então seria razoável pensar que Deus poderia julgar as pessoas, já que elas tiveram a chance, durante a vida, de mudarem, de se tornarem pessoas renovadas. Mas, contudo, isso é utopia! Steven Pinker, diretor do Centro de Neurociência do MIT, em sua ótima obra “Tábula Rasa”, traz exemplos interessantíssimos de como a realidade é outra.

 

Ele cita o caso de Phineas Gage, um trabalhador das ferrovias do século XIX. Certo dia, ele estava usando uma barra de ferro de um metro de comprimento para socar pólvora num buraco de rocha quando uma fagulha provocou uma explosão e fez a barra entrar-lhe pelo osso malar e atravessar-lhe o cérebro, saindo pelo outro lado do crânio. Não, ele não morreu. Por incrível que pareça, ele sobreviveu com a percepção, a memória, a linguagem e as funções motoras intactas. Mas seus colegas, depois do incidente, passaram a dizer: “Gage nunca mais foi Gage”. Um pedaço de ferro o transformara numa pessoa diferente: um sujeito antes cortês, responsável e ambicioso tornou-se um homem rude, irresponsável e indolente. O que aconteceu? A perfuração do seu córtex pré-frontal ventromedial, a região do cérebro acima dos olhos que hoje, sabe-se, participa na forma de agir do ser humano. Mudou o cérebro, mudou a pessoa.

 

Ou seja, muito do que somos é inato, já nasce com a gente. A mente não é uma tábula rasa. Ela já vem com um “software” que determinará muitas de nossas características. Nossos genes moldam nossos cérebros, e pequenas diferenças nele podem gerar grandes diferenças na pessoa. Já se descobriu, por exemplo, que os homossexuais tendem a possuir uma certa parte do cérebro menor que o normal (o núcleo intersticial 3 do hipotálamo anterior), parte essa que tem papel importante nas diferenças entre os sexos. Descobriu-se que os assassinos e outras pessoas anti-sociais violentas tendem a possuir outra parte do cérebro menor e menos ativa (o córtex pré-frontal), sendo essa parte do cérebro que governa a tomada de decisões e inibe impulsos. Ou seja, essas características macroscópicas do cérebro não são obtidas com a experiência, com a vida, com os sentidos. Não. Elas são formadas no útero!

 

Isso significa que se uma pessoa nasce com um córtex pré-frontal do cérebro pequeno e pouco ativo, o efeito dos ensinamentos morais dos pais ou de um pastor ou padre de igreja será menor do que numa pessoa que nasce sem essa deficiência.

 

Pinker cita que psicólogos descobriram que nossas personalidades diferem de 5 modos principais: somos em vários graus introvertidos ou extrovertidos, neuróticos ou estáveis, desinteressados ou abertos à experiência, aquiescentes ou antagônicos e atentos ou dispersivos. Todos os outros adjetivos que existem derivam desses 5 tipos básicos (como desnorteado, descuidado, conformista, impaciente, tacanho, rude, egoísta, desconfiado, não cooperativo, não confiável etc.). Diz Pinker: “Todas as cinco principais dimensões da personalidade são hereditárias, e talvez 40% a 50% da variação em uma população típica estejam ligados a diferenças em seus genes. O pobre coitado que é introvertido, neurótico, tacanho, egoísta e não confiável provavelmente é desse jeito em parte devido a seus genes”.

 

E para fecharmos o assunto, Pinker escreve:

 

“Imagine que você está angustiado porque precisa fazer uma escolha – que carreira seguir, casar-se ou não, em quem votar, que roupa usar em certa ocasião. Quando finalmente você chega, a duras penas, à sua decisão, toca o telefone. É o gêmeo idêntico que você não sabia que tinha [gêmeos idênticos têm os mesmos genes]. Durante a exultante conversa, você fica sabendo que ele acaba de escolher uma carreira semelhante, decidiu casar-se mais ou menos na mesma época, planeja votar no mesmo candidato a presidente e está usando uma camisa da mesma cor – exatamente como os geneticistas comportamentais que descobriram vocês dois teriam apostado. Que grau de escolha o “você” que fez as escolhas realmente teve se o resultado poderia ter sido predito, ao menos probabilisticamente, com base em eventos ocorridos nas tubas uterinas de sua mãe décadas atrás?”

 

Agora vai a pergunta: se Deus nos criou assim, se podemos ser moldados por nossos genes, se a experiência não é decisiva na pessoa que somos, será que esse mesmo Deus pode nos julgar, por sermos assim, sem termos tido escolha? É como se eu jogasse um balde de tinta vermelha no meu filho e depois batesse nele com o chinelo por ele ter se sujado de tinta!

 

Deus não pode nos julgar. O juízo final dos cristãos não tem qualquer sentido!

6 Respostas to “Há sentido no julgamento de Deus?”

  1. Mats Says:

    Agora vai a pergunta: se Deus nos criou assim, se podemos ser moldados por nossos genes, se a experiência não é decisiva na pessoa que somos, será que esse mesmo Deus pode nos julgar, por sermos assim, sem termos tido escolha? É como se eu jogasse um balde de tinta vermelha no meu filho e depois batesse nele com o chinelo por ele ter se sujado de tinta!

    Felizmente, a sociedade não opera segundo o que dizes.
    Nós temos prisões porque sabemos que o ser humano pode escolher que comportamente deve seguir. Se o homem não pudesse escolher o que fazer, então não faria sentido criar prisões. Sabes porquê? Porque qualquer que seja a coisa que as pessoas fizessem, nós poderiams dizer “Ele não tem culpa. Ele apenas age de acordo com a composição química do seu cérebro”.

    Já imaginate como seria a sociedade se fossemos por em práctica a crença que “o homem não tem controle sobre os eu comportamento”?

    Segundo, se o homem não tem controle sobre o que faz, pensa e diz, então aquilo que tu disseste é apenas a consequência das reacçóes químicas do teu cérebro, certo? Porque é que deveria ser levado a sério?

  2. Tiago Says:

    Primeiro, MATS, é importante esclarecer que determinismo em biologia não é a mesma coisa que determinismo em matemática. Para os matemáticos, um sistema determinista é aquele cujos estados são causados por estados anteriores com absoluta certeza, e não probabilisticamente. Em biologia, se trata de causação provável. Nós somos, após o parto, uma matriz de probabilidades, e nossos genes já traçam tendências probabilísticas para o que nós seremos. Isso é bem importante. Por isso é falso quando vc diz que seríamos meras reações químicas do cérebro, que não teríamos controle sobre nossos atos. Temos ainda livre-arbítrio, mas num grau menor do que se imaginava antes. Ainda fazemos escolhas, mas o problema é que Deus não pode fazer comparações entre nós. Se eu sou um assassino psicopata e vc não é, eu não posso ser simplesmente julgado por causa disso; Deus não poderia exigir de mim que eu fosse alguém diferente, pois talvez eu já tenha nascido com 40 ou 50% de chance de ser assim. Ou seja, já nasci em desvatangem em relação a vc. Seria justo eu ser julgado igualmente?
    Segundo, as prisões são criações do século XIX, momento que a ciência não tinha descoberto nada sobre essas coisas. Hoje, é um modelo falido, pois todo mundo vê que não ressocializa. Se vc colocar um psicopata lá dentro, não vai adiantar de nada, pois muito do que ele é veio com ele do útero. Prisão não ressocializa, e isso é unânime entre os penalistas. Certamente, com os avanços da neurociência, esse modelo prisional terá que ser repensado.

  3. Guilherme Says:

    Caro autor deste blog, sinto lhe dizer que seu texto parte de premissas completamente falsas a respeito do cristianismo. Se você era um cristão, não o era de forma esclarecida, não conhecia a fé que seguia, portanto, o fato de você ter algum conhecimento científico (antes um pseudo-conhecimento, pois a ciência nunca teve nada a ver com a postulação de verdades absolutas – leia A Lógica da Pesquisa Científica, de Karl Popper para maiores esclarecimentos) não lhe dá bases para confrontar a teologia cristã. Repito: você parte de premissas falsas, portanto as conclusões serão inevitavelmente falsas. Primeiramente, os Evangelhos dizem em várias passagens que os pecadores provavelmente terão sua salvação antes mesmo daqueles que já crêem. Cristo veio para salvar os pecadores, não os crentes. Segundo, o julgamento de Deus tal como você o interpreta não condiz com a mensagem do Novo Testamento: Deus julgará, sim, mas todos serão julgados, os vivos e os mortos (como está dito no Símbolo Apostólico, mais conhecido como Credo). Seus comentários sobre a neurociência podem até ter algum fundo de razão, mas a ciência trabalha com hipóteses e, para que um conhecimento possa ser caracterizado como científico ele tem de ser necessariamente falseável (leia A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Khun, para maiores esclarecimentos). No mais, você escreve bem. Um abraço!

  4. Tiago Says:

    Obrigado pela mensagem, GUILHERME. Estou no exterior no momento, entao nao ligue para a falta de acentos neste texto, pois as configuracoes de teclado sao outras. Bem, eu nao disse em nenhum momento que a ciencia trata de verdades absolutas. Pelo contrario! Conheco muito bem a obra de Popper, a qual, inclusive, nao se harmoniza com a obra de Kuhn. Por isso nao sei por que razao vc citou ambos na mesma mensagem (e quem trata da questao da falseabilidade eh Popper, e nao Kuhn, que prefere focar a questao dos paradigmas cientificos). Tambem nao entendi o seu comentario teologico: sei que o tema sobre quem sera julgado eh polemico (ja li varias opinioes divergentes), mas, todavia, isso nao faz diferenca nenhuma para a questao colocada neste post. Sim, as hipoteses da neurociencia sao todas falseaveis e, o que ainda eh melhor, elas tem obtido forte verificacao.

  5. Edna Palladino Says:

    Olá Tiago,

    Lendo seu artigo “Há sentido no julgamento de Deus?”, me deparei novamente com a neurociência, uma das formas interessantes de se explicar o homem em tempos modernos. Me recordei o quanto sofri na Faculdade de psicologia ao me ocupar com essa ciência por quatro semestres de inúmeros trabalhos e pesquisas.
    Penso que a ciência tem muito que acrescentar ao conhecimento humano, sem dúvida. O fato de não sermos pensados como tábulas rasas, como se acreditou por tanto tempo, já é um presente em todos os sentidos.
    Eu entendo que você está a busca do “como” as coisas acontecerão, isto é, quais os critérios que nortearão as decisões tomadas na eternidade.
    Quando penso em todas estas coisas, com as quais você discute, infere, e até mesmo, arrisca uma resposta final, chego a uma simples conclusão (horrível esta palavra “conclusão”, parece que voltamos, sem querer, aos braços da metanarrativa – uma resposta final e universal sobre as coisas).
    Pois bem, melhor dizendo, há um pensamento absolutamente simples que gostaria de compartilhar sobre o assunto: Talves, aquele dia nos mostre simplesmente que os que não compartilharem da eternidade com Deus, será unicamente pelo fato de não estarem à vontade com Ele. Ou seja, com tudo o que Ele representa, a maneira como sente, pensa, age, trabalha, julga, cria e experimenta as coisas.
    Seria horrível passar a eternidade com um Deus que eu não admirei, que não significou a minha existência e com o qual não tive afinidadedes. Enfim, seria horrível, pois estamos falando de eternidade!
    Neste caso, não seria Deus quem nos “enxotaria” como um pai que não aceita o filho real, pela ânsia do filho ideal, mas um desejo nosso de escolher onde e com quem passar a eternidade (se é que cremos em eternidade). Neste caso, todos os “suspiros” e “ais” seriam consequências de um estado horrível de existir a partir de sí mesmo.

    Um abraço, foi bom falar com você, desejo que esteja bem.

    Edna Palladino

  6. Tiago Says:

    EDNA, obrigado por sua mensagem. Mas veja que mesmo com essa sua interpretacao, tal “passagem” seria arbitraria. Pois, afinal, quem eh Deus? Eu posso tracar varios perfis de Deus lendo a biblia. Varios. Eu posso ver um Deus amoros, posso ver um Deus vingativo, um Deus mau, um Deus bom, um Deus que recebe a todos, um Deus que seleciona etc. Infelizmente, a biblia nao eh um bom lugar para se procurar por Ele. Assim, como alguem pode dizer que estah confortavel com Deus? O que significaria eu dizer “Eu admiro Deus”? Eu nao sei quem Ele eh! O que eu admiro, o que vc admira, o que todos os cristaos admiram eh uma invencao pessoal. Essa eh a grande verdade. Vc espera que Deus seja essa sua invencao pessoal, que, veja, nao se harmoniza com as invencoes pessoais de muitas outras pessoas. Mas e se no final Ele nao for nada disso que vc pensou toda a vida? Pois muita gente vai errar! Pelas igrejas que passei, as ideias sobre Deus eram as mais dispares possiveis. Colocado isso, pergunto: sera que Ele, mesmo assim, pode decretar sua separacao Dele? Nao seria arbitrario demais? Posso eu ser condenado a nao-eternidade se, nesse ultimo dia, eu descobrir que o Deus real nao corresponde ao meu Deus ideal? Toda a minha vida de adoracao nao tera passado de uma grande ilusao, de uma grande esquizofrenia. Sera que Ele podera me julgar por isso?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: