Raciocínio Lógico e Fé

Setembro 11, 2017

 

São incompatíveis? Não, não são. Mas tome cuidado!

Abaixo exponho os 5 erros de argumentação mais comuns entre cristãos quando estou discutindo religião com eles, ou quando os vejo discutindo com outras pessoas.

O importante aqui é a forma da argumentação, e não seu conteúdo. Mesmo que você esteja usando premissas que considero falsas, o argumento será válido se a sua conclusão derivar delas.

Antes de começar, esclareço as seguintes definições:

Premissa: Uma premissa é uma afirmação ou uma declaração que tem exatamente um valor lógico, ou seja, é verdadeira ou falsa, e é um ponto de partida para a formação de um argumento.

Premissa: “Rio de Janeiro é a capital do Brasil”.

Premissa: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14:6)” (Essa premissa é considerada verdadeira para cristãos e falsa para ateus)

Argumento: Um argumento consiste de uma ou mais premissas que visam provar ou fornecer evidências para a conclusão.

Premissa 1: “Os seres humanos são mortais”.

Premissa 2: “Sócrates é humano”.

Conclusão: “Portanto, Sócrates é mortal”.

Argumento Dedutivo: Um argumento dedutivo é um argumento cuja conclusão segue necessariamente das premissas. Ou seja, em um argumento dedutivo é impossível que sua conclusão seja falsa se suas premissas são todas verdadeiras (empiricamente ou religiosamente verdadeiras, não importa).

Premissa 1: “Nenhum mortal pode parar a passagem do tempo”.

Premissa 2: “Você é mortal”.

Conclusão: “Você não pode interromper a passagem do tempo”.

Argumento Indutivo: Um argumento indutivo é um argumento cuja conclusão provavelmente segue das premissas. Existe uma certa probabilidade de que a conclusão seja verdadeira se as premissas são verdadeiras, mas também há uma probabilidade de a conclusão ser falsa.

Premissa 1: “Geralmente está nublado quando chove”.

Premissa 2: “Está chovendo agora”.

Conclusão: “Está nublado agora”.

Falácia: Uma falácia é um argumento cuja conclusão não pode ser inferida das premissas. Algumas falácias são cometidas intencionalmente enquanto outras são cometidas acidentalmente.

Seguem abaixo exemplos comuns de falácias cometidas por cristãos.

 

FALÁCIA 1 – APELO AO MEDO

É um argumento cuja conclusão não pode ser inferida das premissas porque não há evidência de conexão entre a premissa e a conclusão, mas o medo é usado como evidência. Medo não constitui evidência para inferir a conclusão da premissa.

Exemplo 1:

Premissa 1: “Não acredito em Deus”.

Conclusão: “Então você vai queimar no inferno”.

Exemplo 2:

“Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna (1 Ts 1:8-9).”

Equivale a dizer: “Você não estudou, então vai levar zero”. Funciona como um apelo para mudança de comportamento e joga-se com a drasticidade do resultado. Mas não existe conexão necessária ou provável entre a premissa e a conclusão. Posso tirar nota 1 ou 2, ou até mesmo 6!

Diferente seria:

1 – Eles não obedecem ao evangelho;

2 – Deus geralmente pune com destruição eterna quem não obedece ao evangelho;

3 – Logo, eles sofrerão a punição da destruição eterna.

Todas as premissas são verdadeiras? É possível verificar a primeira se os comandos do evangelho são claros. Não é possível verificar a segunda. Será que há ao menos um versículo bíblico que informa que Deus tem punido todos os que não obedecem ao evangelho, sem exceção, com destruição eterna?

Enfim, ambos exemplos são uma falácia porque não há nenhuma evidência de que a descrença em Deus levará a uma eternidade de sofrimento no inferno, mas vira “argumento” para a pessoa que usa porque a possibilidade é aterrorizante, e, por isso, muitas pessoas aceitam a conclusão como verdadeira.

Esta falácia a seguir se tornou conhecida pelo filósofo, matemático e físico francês do século XVII Blaise Pascal. A chamada Aposta de Pascal segue o seguinte formato:

1- Se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;

2- Se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;

3- Se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;

4- Se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.

Porém, como vimos, o apelo a uma eternidade de sofrimento no inferno, em suma, ao medo, é uma falácia, e não um argumento dedutivo ou indutivo.

Um importante contra-argumento à Aposta de Pascal é reconhecer que existem mais de duas opções além de acreditar ou não no Deus judaico-cristão. Ou seja, a verdadeira probabilidade de salvação é bem menos que 50%. Em outras palavras, a Aposta de Pascal ignora outras crenças. Para toda religião que promulga salvação e punição, existe outra religião que possui regras similares. Se uma determinada ação leva uma pessoa a ficar mais próxima da salvação no Cristianismo, ao mesmo tempo pode estar levando-a mais longe disso em outra religião. Portanto, tomando em consideração todas as religiões, as chances de acertar acreditando no Deus judaico-cristão como sendo o verdadeiro fica próximo de 0%.

 

FALÁCIA 2 – ARGUMENTO CIRCULAR

Um argumento cuja premissa declara que a conclusão é verdadeira. Ou seja, a premissa assume o que a conclusão está tentando provar. Isso é uma falácia porque assumir que a conclusão é verdadeira em uma das premissas não constitui evidência que a conclusão pode ser inferida da premissa. Alguns argumentos circulares são bastante sutis.

Exemplo:

Premissa 1: “Está escrito na Bíblia que “Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Tim 3:16a).”

Conclusão: “A Bíblia é a palavra de Deus porque está escrito na Bíblia”.

O exemplo é uma falácia porque assume a autoridade da Bíblia como verdadeira ou infalível. A legitimidade e a autoridade da Bíblia requer comprovação por fontes externas. É o mesmo que dizer: “Eu sou o Superman porque eu estou dizendo que sou”. Sou mesmo?

 

FALÁCIA 3 – INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA

Exigir demonstração da inexistência de algo em lugar de fornecer provas adequadas para a sua existência. Uma pessoa faz uma declaração que precisa de justificação, e exige que o oponente justifique o oposto da declaração.

Exemplo:

“Deus existe. Até que você prove o contrário, continuarei acreditando que ele existe.”

Um ponto de debate é se o ônus da prova está do lado cristão ou ateu. Se analisarmos com cuidado, perceberemos que o ônus é dos cristãos. O Cristianismo afirma que Deus existe. Essa declaração requer justificação ou evidência. Os ateus afirmam que não acreditam em Deus porque não há evidência da existência de Deus, e estão dispostos a mudar de opinião se evidências forem apresentadas. Não é possível provar a inexistência de uma coisa. A existência é que deve ser demonstrada. Prove que o Superman não existe!

 

FALÁCIA 4 – APELO À IGNORÂNCIA

Concluir uma premissa baseado na falta de evidência contra a premissa. Melhor descrito como: “a ausência de evidência não é evidência de ausência”.

Exemplo:

Premissa 1: “A ciência não conseguiu criar vida da não-vida.”

Conclusão: “A vida é resultado da intervenção divina.”

Outra forma seria: Não posso provar que tirei 10 sem colar, mas todo mundo na sala colou e ninguém tirou 10. Logo, eu tirei 10 sem colar.

Ế melhor tomar a posição “nós não sabemos, portanto pesquisamos” do que “nós não sabemos, portanto Deus”.

 

 FALÁCIA 5 – ARGUMENTO DO DESEJO

Um argumento cuja conclusão não pode ser inferida das premissas porque não há evidência conectando a premissa à conclusão, mas o desejo é usado como evidência. O pensamento desejoso também pode fazer com que alguém avalie a existência ou não de evidência de forma muito diferente com base no resultado desejado.

Exemplo :

Premissa 1: “Não consigo imaginar o objetivo da vida se tudo acaba quando morremos.”

Conclusão: “Após a morte nós vamos para o Céu.”

Outra forma seria: “Não consigo imaginar que pessoas infiéis casem, pois o casamento perde sentido. Após o casamento, os cônjuges são fiéis uns aos outros!”

Por mais que você assim deseje ou que isso lhe pareça bastante razoável, não quer dizer que seja verdadeiro. O salto da premissa para a conclusão é grande demais.

Enfim, mesmo usando premissas verdadeiras apenas religiosamente, você pode construir argumentos válidos. Desde que estejam em boa forma! Mas tenha cuidado com as falácias. Elas não têm nenhuma base lógica.

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Os Dez Mandamentos: as 3 versões e o direito

Agosto 31, 2017

 

Há alguma relação entre os Dez Mandamentos e o direito em vigor? Em que esferas da vida um e outro operam?

1. A primeira versão dos Dez Mandamentos

De acordo com a tradição judaica, são 613 o número de Mandamentos. A enumeração tradicionalmente aceita foi escrita pelo rabino Maimonides no século XII.

Os 613 Mandamentos estão divididos entre os quatro últimos livros do Pentateuco: 108 em Êxodo, 57 em Números, 242 em Levíticos e 204 em Deuteronômio.

Entre esses 613 Mandamentos estão escritos os Dez Mandamentos tradicionalmente aceitos pelos Judeus, Católicos e Protestantes. Eles possuem mais autoridade que os demais Mandamentos porque Deus os escreveu com seu próprio dedo:

Quando o Senhor terminou de falar com Moisés no monte Sinai, deu-lhe as duas tábuas da aliança, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus.

Ex 31:18

E as tábuas de pedra onde foram escritos os Dez Mandamentos foram guardadas na Arca da Aliança:

Coloque a tampa sobre a arca, e dentro dela as tábuas da aliança que darei a você.

Ex 25:21

Além disso, a tradição cristã e judaica considera os Dez Mandamentos base das leis bíblicas, explicitando os padrões atemporais e universais do que Deus considera certo e errado. Já os demais Mandamentos incluem vários deveres, cerimônias e rituais que, em alguns casos, não são mais observados.

Porém, Protestantes, Católicos e Judeus diferem na forma como enumeram e organizam os Mandamentos. E para dificultar mais o assunto, existem três versões dos Dez Mandamentos, seja na Bíblia Protestante, Católica ou Judia. A primeira e mais conhecida versão está escrita em Ex 20:2-17.

A divisão tradicionalmente aceita dos Mandamentos entre as denominações Protestante, Católica (Romana) e Judia é dada na tabela abaixo. Os números indicam a ordem serial dos Mandamentos (1 é considerado o 1º Mandamento para o grupo indicado, e assim por diante):

Mandamento Judaica Protestante Católica
Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão (Ex 20:2)

1

1

Não terás outros deuses além de mim (Ex 20:3)

2

1

1

Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto (Ex 20:4-6)

2

2

1

Não tomarás em vão o nome do Senhor (Ex 20:7)

3

3

2

Lembra-te do dia de sábado, para santifica-lo (Ex 20:8-11)

4

4

3

Honra teu pai e tua mãe (Ex 20:12)

5

5

4

Não matarás (Ex 20:13)

6

6

5

Não adulterarás (Ex 20:14)

7

7

6

Não furtarás (Ex 20:15)

8

8

7

Não darás falso testemunho contra o teu próximo (Ex 20:16)

9

9

8

Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seus servos ou servas, nem seu boi ou jumento (Ex 20:17a,b)

10

10

9

Nem coisa alguma que lhe pertença (Ex 20:17c)

10

10

10

Note que as passagens em Ex 20 contém no mínimo 13 advertências. Isto implica que os Dez Mandamentos são na verdade no mínimo treze. O número dez é uma escolha para ajudar a memorização, e não uma questão de teologia.

Para os Judeus, Ex 20:2 é o primeiro Mandamento por ser uma afirmação de fé, já que eles, os Judeus, foram libertados do Egito.

Para os Protestantes, Ex 20:3 é o primeiro Mandamento; Ex 20:4-6 o segundo Mandamento, e Ex 20:17 o décimo. Segundo os Católicos, todas as passagens de Ex 20:2-6 são tradicionalmente aceitas como o primeiro Mandamento. Ex 20:17 é dividida entre o nono e o décimo Mandamentos para somarem dez.

Em versões Protestantes da Bíblia, a tradução para o português de Ex 20: 4 é “Não farás para ti nenhum ídolo”. Já em algumas traduções da Bíblia católica lê-se “Não farás para ti imagem de escultura”. Ambas traduções aparentam tratar do mesmo Mandamento, porém há uma profunda diferença teológica.

A proibição de falsas imagens é considerada um Mandamento separado para os Protestantes por refletir aspectos teológicos e ideológicos da Reforma Protestante. Um dos pontos importantes da Reforma Protestante foi destruir estátuas em igrejas e catedrais Católicas, e transformar estes prédios em igrejas Protestantes. No entanto, a igreja Católica manteve estátuas de santos, da Virgem Maria e de Jesus. Isto implica que os Católicos estariam violando o segundo Mandamento da Bíblia Protestante.

No Compêndio do Catecismo da Igreja Católica Brasileira, o segundo mandamento é substituído por “Guardar castidade nas palavras e nas obras”.

Claramente os Dez Mandamentos não são dez advertências universalmente aceitas. A análise acima já demonstra que é impossível uma versão teológica neutra. Qualquer leitura dos Dez Mandamentos, seja na internet, em um filme ou em uma novela, já implica que decisões enviesadas, relacionadas à tradução, enumeração e ideologia, foram tomadas.

Baseado nesses vieses (ou “preconceitos”, literalmente!), convido o leitor a identificar qual denominação esteve encarregada do filme Os Dez Mandamentos (1956) e da novela Os Dez Mandamentos (2015).

Outros Mandamentos são relatados em Ex 21-30 envolvendo leis acerca do Altar do Senhor, dos Escravos Hebreus, da Violência e dos Acidentes, da Proteção da Propriedade, das Responsabilidades Sociais, e outros temas. Apesar desses Mandamentos não terem sido escritos pelo dedo de Deus nas tábuas da aliança, eles em conjunto com os Dez Mandamentos refutam a noção de que os Mandamentos refletem a base dos fundamentos morais da lei brasileira, ou que eles são base para verdades universais, independentemente da religião.

O argumento de que a lei brasileira foi fundamentada na lei bíblica parte da linha de pensamento de que a legislação brasileira veio da lei americana, que, por sua vez, veio da lei britânica, e a lei britânica estava ligada à Igreja e ao Cristianismo. No entanto, a afirmação de que os Dez Mandamentos, ou mesmo a Bíblia, são o fundamento moral da lei brasileira não sustenta um escrutínio cuidadoso.

A criação da nação sob a Constituição foi influenciada por muitas fontes de direito ingleses, como a Magna Carta e a Declaração de Direitos Inglesa, bem como fontes de pensadores do Iluminismo como John Locke, John Trenchard e Thomas Gordon. A Magna Carta, por exemplo, não faz referência aos Dez Mandamentos ou a qualquer um dos outros 603 Mandamentos.

Igualdade, liberdade, fraternidade, autodeterminação, entre outros, explícita ou implicitamente, são valores comuns de serem encontrados nas Constituições ocidentais.

A afirmação de Thomas Jefferson, fundador da Constituição Americana, de que “todos os homens são criados iguais”, escrita também na Constituição Brasileira, não tem fundamento moral baseado na Bíblia, nos Mandamentos Bíblicos, ou nos Dez Mandamentos. Pelo contrário, os Mandamentos relacionados aos Escravos Hebreus logo após os Dez Mandamentos em Êxodo 21, formam base para aprovação da escravidão durante o Brasil-Colônia:

Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas, ao sétimo, sairá forro, de graça. Se entrou só com o seu corpo, só com o seu corpo sairá; se ele era homem casado, sairá sua mulher com ele. Se seu senhor lhe houver dado uma mulher, e ela lhe houver dado filhos ou filhas, a mulher e seus filhos serão de seu senhor, e ele sairá só com seu corpo. Mas, se aquele servo expressamente disser: Eu amo a meu senhor, e a minha mulher, e a meus filhos, não quero sair forro, então, seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao postigo, e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e o servirá para sempre.

Ex 21:2-6

Várias traduções usam a palavra servo ao invés de escravo para amenizar o assunto. Porém, os versículos explicam a condição de servo como propriedade. Inclusive esclarecem que a família de um servo/escravo é propriedade de seu mestre, e não sua.

O Novo Testamento também explica como um senhor feudal deve tratar um escravo não submisso:

E o servo que soube a vontade do seu senhor e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites.

Lc 12:47

“Será castigado com muitos açoites” foi base para castigos corporais durante a escravidão.

Misoginia também é outro problema. Por exemplo, sob a lei bíblica o divórcio só pode ser iniciado pelo marido (convido o leitor a ler neste blog o texto “Estupro no Antigo Testamento: como justificar a autoridade moral de Deus?”).

O segundo e décimo Mandamentos (enumerados de acordo com a tradição Judia) sequer devem ser considerados como exemplos de moralidade. No segundo Mandamento, Deus pune futuras gerações por erros cometidos por seus antepassados:

Castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem aos meus Mandamentos.

Ex 20:4-6

No direito brasileiro, não é possível sanções muito longas.

O quinto Mandamento, “honrar o pai e a mãe”, foi praticamente invertido: a Constituição brasileira exige que os pais honrem os filhos, lhes garantindo dignidade.

Matar e furtar (sexto e oitavo Mandamentos respectivamente) são crimes e, portanto, ainda são ações inaceitáveis para a nossa sociedade. Já o adultério (sétimo Mandamento) deixou de ser crime há muitos anos.

O falso testemunho (nono Mandamento) também é crime, pois prejudica a administração da justiça.

E o décimo Mandamento, “Não cobiçarás”, condena um pensamento! Nossa Constituição protege a livre manifestação do pensamento.

Ou seja, muito pouco da moralidade de Deus dada no Sinai é relevante nos textos que buscam regular nossa sociedade hoje. Que tipo de sociedade teríamos se os Mandamentos tivessem influenciado nossa Constituição?

2. Segunda versão dos Dez Mandamentos

Quando Moisés aproximou-se do acampamento e viu o bezerro de ouro e as danças, jogou as tábuas no chão, quebrando-as. Deus manda Moisés talhar duas novas tábuas de pedra semelhantes às primeiras:

Eu escreverei nas tábuas as palavras que estavam nas primeiras, que você quebrou, e você as colocará na arca.

Dt 10:2

E nelas, escreve os Mandamentos que estavam nas primeiras tábuas:

Escreva essas palavras; porque é de acordo com elas que faço aliança com você e com Israel. Moisés ficou ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão e sem beber água. E escreveu nas tábuas as palavras da aliança: os Dez Mandamentos.

Ex 34:27

Deus reescreve os Dez Mandamentos conforme está escrito em Ex 34:12-26. Esta é a segunda versão dos Dez Mandamentos:

1a. Acautele-se para não fazer acordo com aqueles que vivem na terra para a qual você está indo (Ex 34:12).

1b. Derrube os altares deles, quebre as suas colunas sagradas e corte os seus postes sagrados (Ex 34:13).

  1. Nunca adore nenhum outro deus (Ex 34:14).
  2. Não faça ídolos de metal para você (Ex 34:17).
  3. Celebre a festa dos pães sem fermento (Ex 34:18).
  4. O primeiro a nascer de cada ventre me pertence, todos os machos dentre as primeiras crias dos seus rebanhos. Resgate todos os seus primogênitos (Ex 34:19).
  5. Trabalhe seis dias, mas descanse no sétimo (Ex 34:21).
  6. Celebre a festa das semanas (Ex 34:22).
  7. Não me ofereça o sangue de nenhum sacrifício misturado com algo fermentado, e não deixe sobra alguma do sacrifício da festa da Páscoa até a manhã seguinte (Ex 34:25).
  8. Traga o melhor dos primeiros frutos da terra ao santuário do Senhor, o seu Deus (Ex 34:26).
  9. Não cozinhe o cabrito no leite da própria mãe (Ex 34:26b).

Mais uma vez, são no mínimo 13 as advertências e dez os Mandamentos. Note que a segunda versão dos Mandamentos não trata de moralidade. O décimo Mandamento, por exemplo, é um Mandamento culinário.

3. A terceira versão dos Dez Mandamentos

A terceira versão dos Dez Mandamentos encontra-se no livro de Deuteronômios. Estima-se que o livro de Deuteronômios tenha sido escrito no final do século 6 A.C., aproximadamente 100 anos após o livro de Êxodos.

A terceira versão reconta o evento do livro de Êxodos para gerações mais jovens que estavam para entrar na Terra Prometida. O relato de autoridade quando Deus termina de falar com Moisés e dá-lhe as duas tábuas da aliança escritas pelo seu próprio dedo é confirmada em Dt 4 e 5:

Ele lhes anunciou a sua aliança, os Dez Mandamentos. Escreveu-os sobre duas tábuas de pedra e ordenou que os cumprissem. Naquela ocasião, o Senhor mandou-me ensinar-lhes decretos e leis para que vocês os cumprissem na terra da qual vão tomar posse.

Dt 4:13-14

Essas foram as palavras que o Senhor falou a toda a assembléia de vocês, em alta voz, no monte, do meio do fogo, da nuvem e da densa escuridão; e nada mais acrescentou. Então as escreveu em duas tábuas de pedra e as deu a mim.

Dt 5:22

A terceira versão dos Dez Mandamentos nas duas tábuas é:

  1. Não terás outros deuses além de mim (Dt 5:7).

2a. Não farás para ti nenhum ídolo (Dt 5:8).

2b. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto (Dt 5:9-10).

  1. Não tomarás em vão o nome do Senhor (Dt 5:11).
  2. Guardarás o dia de sábado a fim de santificá-lo (Dt 5:12).
  3. Honra teu pai e tua mãe (Dt 5:16).
  4. Não matarás (Dt 5:17).
  5. Não adulterarás (Dt 5:18).
  6. Não furtarás (Dt 5:19).
  7. Não darás falso testemunho contra o teu próximo (Dt 5:20).

10a. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, não desejarás a casa do teu próximo (Dt 5:21),

10b. Nem sua propriedade, nem seu servo ou serva, nem seu boi ou jumento, nem coisa alguma que lhe pertença (Dt 5:21).

A primeira e terceira versão são quase idênticas. Divergências existem dependendo da tradução da Bíblia para o português, e da denominação religiosa.

Desconsiderando as divergências de enumeração, tradução e organização entre as denominações Protestantes, Católicas e Judias, e as divergências ideológicas e teológicas entre as diferentes Igrejas de cada denominação, das três versões dos Dez Mandamentos, somente três Mandamentos são similares:

  1. Nunca adore nenhum outro deus (Ex 20:3, Ex 34:14, Dt 5:7).
  2. Não farás para ti nenhum ídolo (Ex 20:3-6, Ex 34:17, Dt 5:8-10).
  3. Trabalhe seis dias, mas descanse no sétimo (Ex 20:8-11, Ex 34:21, Dt 5:12).

O preâmbulo da Constituição brasileira anuncia um Deus, mas seu texto defende a liberdade de qualquer culto. Ou seja, infringir os Mandamentos 1 e 2 está autorizado. O descanso é direito social, mas não necessariamente no sétimo dia. Vai depender do regime de trabalho acordado entre empregado e empregador. Ou seja, tais Mandamentos encontram-se superados dado o estágio econômico e cultural em que as sociedades ocidentais se encontram.

Em outras palavras: religião é prática privada, a ser exercida dentro de casa, e ainda assim com limites. Se você levá-la para a rua ou tentar impô-la a terceiros, poderá estar infringindo alguma lei, e poderá vir a ser preso ou a pagar uma indenização. Sua liberdade termina onde a do seu próximo começa.

 

 

 

 

 

 

A própria Bíblia nega a vida após a morte

Janeiro 5, 2014

Reflexão do dia. Gênesis 3:19. Após expulsar Adão do Éden, Deus lhe diz que do rosto comerás o pão, “até que tornes à terra, pois dela foste formado: porque tu és pó e ao pó retornarás”.

Ou seja, o homem veio do pó da terra e ao pó da terra retornará. Ponto final. Não se menciona vida após a morte.  Essa ideia veio aparecer depois tanto no cristianismo quanto no judaísmo por influência do zoroastrismo. O Antigo Testamento não faz separação entre espírito e matéria. Essa separação só aparece no Novo Testamento (para aprofundamento desses temas, ver posts sobre o Inferno e o Espírito Santo aqui no blog). O versículo de Gênesis é claro: o homem é pó. É apenas matéria. O que está dentro dele morre com ele. Volta ao pó.

Se a Bíblia foi escrita (ou inspirada) por Deus, como dizem os cristãos e judeus, não poderia se contradizer. O que está no AT não bate com o que está no NT.

O Pentateuco é simples: o homem veio da terra, como os demais seres vivos, e a ela voltará após a morte. Não existe morada no céu ou no inferno. Tudo finda com a morte. Como diria Espinosa, é a lei da Natureza, e Deus é a Natureza. Epicuro, na Antiguidade, já dizia que a alma é mortal. Não à toa que os seguidores desse filósofo foram amplamente perseguidos pelos cristãos depois.

Portanto, seja bom aqui e agora. Você só tem esta vida! Não jogue todas as fichas em uma outra vida que, conforme todos os indícios – dentro e fora da bíblia! -, provavelmente não virá.

Lição da vida

Abril 22, 2013

Desde 2006 eu nunca mais coloquei os pés numa igreja. Isso depois de muitos anos frequentando várias delas. E desde 2006 que também não converso mais com Deus. Nunca mais fiz uma oração. O que mudou na minha vida? Nada. Tudo continua caminhando como sempre caminhou. E talvez até tenha melhorado. Depois que deixei a igreja concluí um mestrado e um doutorado, tive uma linda filha, fiz viagens maravilhosas, publiquei dois livros… Ah, sim, esses anos me fizeram muito bem! E digo mais: acho que sou mais feliz hoje do que era antes. Então pergunto a todas as pessoas cristãs que conheci na vida: como isso é possível? Eu me retirei do “ambiente de bênçãos”, deixei de pagar dízimos e dar ofertas, parei de buscar a Deus, passei a criticar os cristãos por sua crença sem fundamento… e tudo continua maravilhosamente bem. Mais! Tudo está bem melhor!

Diante de um desafio ou um problema qualquer, não peço mais a força de Deus. Eu passei a falar comigo mesmo: “Eu posso e farei!”. E faço! Diante do desconhecido e do frio na barriga, diante da vulnerabilidade e da doença, não peço mais ajuda a Deus. Eu digo comigo mesmo: “Enfrentarei! E que a vida siga o seu curso!”.

Não preciso de ajuda externa. Eu me viro. O que governa a vida são as contingências e a nossa competência em lidar com elas. Só isso. Adicionar mais pra quê? Adicionar sem necessidade, clamar por uma ajuda externa, isso tudo é covardia, moleza, é fuga, é preguiça. Ah, como cresci como ser humano quando descobri que sou independente e tudo posso se tenho ânimo, vontade e disposição! Só isso. A vida é simples. Enfrente-a. Não fuja dela. Complicar pra quê?

Evangelho de Mateus: manipulação, subjetivismo, equívoco, ou Jesus é realmente o Messias?

Julho 5, 2011

Escrito por PEDRO IVO

Jesus é considerado o principal personagem do Novo Testamento (NT), e até hoje é motivo de muitas controvérsias. Suas idéias e filosofias foram escritas por seus discípulos ou por terceiros.

Os manuscritos bíblicos mais antigos datam dos séculos III e IV d.C. Tais manuscritos são o resultado do trabalho de copistas, às vezes analfabetos que, durante séculos, foram transmitindo cópias dos textos às gerações seguintes. São textos sujeitos a erros e modificações, involuntários ou voluntários, que suscitam diversas leituras e interpretações dum mesmo texto e levantam muitas questões e dúvidas sobre a vida de Jesus e seus ensinamentos.

Somente após os primeiros séculos os textos passaram a ser copiados por mais capacitados escribas. De fato, há mais erros de transcrição do que há palavras no NT.

Em suma, era Jesus realmente o tão esperado Messias do Velho Testamento (VT)? Sabe-se que Mateus não o considerava o Messias até após a sua morte; e o seu evangelho só foi escrito aproximadamente 20 anos após o fato. Apesar de fortes oposições, é tradicionalmente aceito que Mateus foi o 1° evangelho escrito e usado como fonte – inclusive por Lucas e Marcos. Os evangelhos de Lucas e Marcos levam à conclusão de que Mateus forçou profecias do VT a respeito de Jesus, já que muitas analogias e referências foram rejeitadas ou até mesmo alteradas por eles.

Ė Mateus uma fonte confiável quando se trata de profecias messiânicas? Em Lucas já vemos um grande problema com a genealogia de Jesus: apenas 9 dos 42 nomes em Mateus são equivalentes. E mais, a simetria de 14 gerações de Abraão a Davi, 14 de Davi ao exílio, e 14 do exílio a Jesus (Mt 1:17), encontrada por Mateus, não existe em Lucas Um problema embaraçoso para um Cristo descendente de ícones do VT como o Rei Davi e Abraão.

Em Mateus, o 1° evangelho e 1° livro do NT, Jesus é mencionado 182 vezes em seus 28 capítulos. Destes, 103 fazem alusão ao VT. Aqui, vou me ater às passagens que aludem à vinda do Messias no VT mencionadas claramente por Mateus.

1- Is 7:14

Em Mt 1, Mateus faz alusão ao nascimento de Jesus, uma profecia do livro de Isaías sobre o Messias:

Eis que a virgem conceberá e dará a luz a um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel. Mt 1:23

Esta passagem escrita em Is 7:14 refere-se, na verdade, ao rei Ezequias. No capítulo 7 de Isaías, Acaz, rei de Judá, prefere aliar-se aos Assírios a depender de Deus para defender seu reinado (Is 7:12, 2 Rs 16:5-9). Isaías, prevendo a queda de Judá, profetiza sobre o futuro rei Ezequias. No período da profecia (735-715 A.C.), Abi, a mãe do futuro rei (2 Cr. 29:1), era jovem e ainda virgem:

Ele comerá manteiga e mel quando souber desprezar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes que este menino saiba desprezar o mal e escolher o bem, será desamparada a terra ante cujos dois reis tu tremes de medo. Is 7:15,16

Assim como em Is 7:14, os versículos 15 e 16 se referem à criança Ezequias. Os dois reis mencionados são os reis Rezin da Síria, e Peca, rei de Israel, que levantam-se contra Judá. Ambos os reis foram assassinados no ano de 732 A.C., quando Ezequias tinha apenas 7 anos de idade. Os versículos seguintes (Is 7:17-25) referem-se à queda de Damasco, Síria, e Samaria, capital de Israel, que caiu no ano 722 A.C.

Durante o seu reinado (716/715-687 A.C.), Ezequias sucedeu a seu pai e iniciou uma reforma religiosa em Israel, reparando e purificando o templo. Ele também reintegrou os sacerdotes e levitas ao seu ministério, e restaurou a celebração da Páscoa (2 Cr.29:3 e 30:5). Além disso, Ezequias combateu a idolatria em Judá proibindo o culto aos deuses pagãos, e destruiu a serpente de bronze construída na época de Moisés, idolatrada pelo povo (2 Rs. 21: 3 e 18:4). Daí a idéia de um Salvador para remover os pecados de seu pai Acaz, e de Israel.

2- Mq 5:2

Mateus associa Mq 5:2 ao fato de Jesus ter vindo de Belém àquele que guiará o povo de Israel:

E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo Israel. Mt 2:6

Em Miquéias, no Texto Massorético (MT), escrito em hebraico antigo, com tradução fiel da pronúncia tradicional do texto, sem vogais, e utilizado como base em várias traduções protestantes do VT, lê-se:

E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá; de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. Portanto, o Senhor os entregará até ao tempo em que a que está em dores tiver dado a luz; então o restante de seus irmãos voltará aos filhos de Israel. Mq 5:2

Miquéias foi um profeta do reino do Norte, e assim como Isaías, profetizou durante os reinados de Acaz e Ezequias (Jr 26:17, 18). Pregou fortemente durante o poderio militar Assírio e contra a desobediência do povo. Independentemente do capítulo 5 ter sido escrito pelo próprio Miquéias ou não, ele se refere aos Assírios e a sua própria época, como pode ser visto nos versículos 4 e 5 do mesmo capítulo:

E ele permanecerá e apascentará com a força do Senhor, na excelência do nome do Senhor seu Deus; e eles permanecerão, porque ele será engrandecido até os fins da terra. E este será nossa paz quando a Assíria vier a nossa terra: e quando ela passar sobre os nossos palácios, levantaremos contra ela sete pastores e oito príncipes dentre os homens. Estes consumirão a terra da Assíria a espada. Mq 5:4-6a

O versículo 1 trata de um Messias que reinará em Israel, e não que a guiará. Além disso, João (Jo 1:46) e Marcos descrevem Jesus como Nazareno. E Mateus e Lucas, apesar de concordarem que Jesus nasceu em Belém, dão diferentes relatos sobre seu nascimento. O maior ponto de discórdia são os homens sábios que visitam Jesus. Segundo Mt 2:7-9, estes são enviados por Herodes. E após a revelação dos pensamentos malignos de Herodes em sonho (Mt 2:12), retornam ao seu lar por outro caminho. Em Lucas, os homens sábios são apenas pastores que trabalhavam próximo de onde Jesus nasceu (Lc 2:8). Em nenhum momento o nome de Herodes é mencionado; e somente em Mateus o genocídio é relatado.

3- Os 11:1

Em Mt 2:15, Mateus relata a perseguição de Herodes como outra profecia cumprida sobre o Messias:

E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. E esteve lá, até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho. Mt 2:14,15

O final da passagem refere-se a Os 11:1. Entretanto, Oséias estava falando de Moisés, responsável pelo êxodo do Egito, os Dez Mandamentos e reenforçador da Lei.

Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho. Quanto mais eu os chamava, tanto mais se iam da minha presença; sacrificavam a Baal (Nm 24:3) e queimavam incenso as imagens de esculturas (Ex 32:8). Os 11:1,2

4- Jr 31:15

Em 2:18, Mateus relata o genocídio de Herodes como mais uma profecia cumprida:

Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que diz: Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos. E não querendo ser consolada, porque já não existem. Mt 2:16,17

Porém, Jr 31:15 relata o cativeiro da Babilônica, quando Judá, constituída pelas tribos de Judá e Benjamim, filho de Raquel, foi levada cativa. Supostamente foram levados a Babilônica pela cidade de Ramá, passando pelo local onde Raquel foi enterrada (Gn 35:19).

O versículo seguinte, dando continuidade ao enredo de Jeremias, trata do retorno dos cativos que nunca aconteceu:

 Assim diz o Senhor: Reprime a voz de choro, e as lágrimas de teus olhos, porque há galardão para o teu trabalho, diz o Senhor; pois eles voltarão da terra do inimigo. Jr 31:16

 5- Is 40:3

No capítulo 3 de Mateus, João Batista é relatado como o mensageiro que vem antes do Messias:

Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas. Mt 3:3

Este versículo refere-se a Is 40:3. Nele, no texto MT, a palavra “deserto” não existe. Removendo a palavra-chave deserto, o versículo perde qualquer conexão com Jesus:

Voz do que clama: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Is 40:3

Na verdade, os capítulos 40 a 66 de Isaías foram escritos após a sua morte, e contém diversas profecias apocalípticas. Estes capítulos foram escritos aproximadamente entre os anos 566-539 A.C., por alguém que estava exilado na Babilônia. Especificamente, o profeta refere-se ao retorno dos exilados da Babilônia para Jerusalém, e como Deus facilita o retorno dos cativos:

Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua malícia, que sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do Senhor por todos os seus pecados. Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos aplanados. Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio; as que amamentam ele guiará mansamente. Is 40:2, 4-11

6- Is 53:4

Em Mt 8:17, Mateus associa as curas milagrosas de Jesus as profecias messiânicas de Isaías:

Ele mesmo tomou as nossa enfermidades e carregou com as nossas doenças. Mt 8:17

Este versículo refere-se a Is 53:4, um dos capítulos sobre profecias messiânicas mais conhecidos do VT. Quando lido no hebraico, vemos que diversos versículos deste capítulo foram transcritos e traduzidos para melhor acomodar a história de Jesus. Por exemplo, o versículo 5 que relata a história da cruz usando a palavra traspassado é apenas o verbo selecionado pelo escriba para adequar com mais clareza a passagem a Jesus:

Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades. Is 53:5

No MT, este versículo escreve

Mas ele foi violado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades. Is 53:5

perdendo qualquer conexão exata com a crucificação de Jesus. O mesmo ocorre no versículo 9. Na Bíblia lemos:

Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na morte. Is 53:9

Este versículo comprova a profecia de José de Arimatéia, que doa sua sepultura a Jesus. No MT, lemos

Designou sua sepultura com os perversos e com os ricos. Is 53:9

perdendo qualquer correlação direta com Jesus. A associação da passagem a Jesus é visível após as modificações feitas por tradutores e escribas eliminando qualquer dúvida.

O cânone da Igreja Católica, fixado através do Concílio de Trento (1545-1563), utiliza para o VT a versão conhecida como Septuaginta, utilizada pela Igreja Católica Romana a partir do ano 400 D.C., que é a tradução do VT para o idioma grego, patrocinada pelo faraó Ptolomeu II do Egito.

A Septuaginta inclui material que não foi incluído na Bíblia Hebraica, de fontes diferentes e divergentes, inclusive material original já escrito em grego, o que explica as falhas de traduçāo. Na versão protestante, os defensores da reforma protestante utilizaram o texto MT e excluíram do cânone todos os livros ou fragmentos que não correspondiam ao texto hebraico, como Judite, Tobias, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1° Macabeus e 2° Macabeus, os capítulos 13 e 14 e os versículos 24 a 90 do capítulo 3 de Daniel, além dos capítulos 11 a 16 de Ester.

No entanto, versões famosas em português, como a de João Ferreira de Almeida, publicadas pela primeira vez no final do século XVII, não são de todo confiáveis. Alguns historiadores afirmam que as relações entre Almeida e os revisores da tradução foram tensas, especialmente devido a diferenças de opinião sobre o significado de algumas palavras e sobre o estilo do português usado.

7- Ml 3:1

No próximo versículo profético em Mt 11:10, o próprio Jesus associa João Batista como o mensageiro do Senhor:

Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual prepara o teu caminho diante de ti. Mt 11:10

Essa passagem refere-se a Ml 3:1:

Eis que eu envio o meu mensageiro, que prepara o caminho diante de mim, de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vos buscais, o Anjo da Aliança, a quem vos desejais; eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos. Ml 3:1

 Se lermos o capítulo até o final, vemos que na verdade o prometido mensageiro a quem Malaquias se refere é Elias (Ml 3:23), que foi arrebatado (2 Re 2-11). Os últimos 6 versículos de Malaquias 3, que tratam sobre Elias, foram transformados em Ml 4:1-6. Mas recolocando-os em Ml 3, não há dúvidas (Ml 4:5) de que o capítulo relata o regresso de Elias.

8- Is 6:9 e Sl 78:2

Em Mt 13:14,15 e 35 Mateus vê o cumprimento de outra profecia, quando Jesus é questionado pelos discípulos por confundir a multidão ao falar em parábolas:

Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis; vereis com os olhos e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam com os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados. Mt 13:14,15

Abrirei em parábolas a minha boca; publicarei cousas ocultas desde a criação. Mt 13:35

A primeira passagem refere-se a Is 6:9. Neste versículo, Deus está falando com o próprio Isaías. Nesta época, devido ao reino de Uzias, (783-742 A.C.) Israel se afastou dos caminhos do Senhor. Por sua iniquidade, as suas cidades foram desoladas (Is 6:12). Isaías está prevendo o exílio da Babilônia e as diversas cidades que foram destruídas.

A segunda passagem refere-se a Sl 78:2, que trata claramente sobre o rei Ezequias e a invasão de Senaqueribe, rei da Assíria, e a deslealdade do reino do norte de Israel durante o seu reinado (Sl 78:9-11). Inclusive foi escrito por Asafe, o cronista, durante o reinado de Ezequias em 715 A.C.

9- Zc 9:9

Mt 21:4 trata da entrada triunfal de Jesus em Jersusalém em um jumento:

Ora, isto aconteceu para se cumprir o que foi dito por intermédio do profeta: Dizei a filha de Sião: Eis aí te vem o teu Rei, humilde, montado em um jumento, num jumentinho, cria de animal de carga. Mt 21:4

Neste versículo, Mateus se refere a Zc 9:9. No versículo 10, o Rei, além de anunciar paz às nações, algo que Jesus fez, demarca o seu reinado de mar a mar, desde o Eufrates até as extremidades da terra (Zc 9:10). Jesus não foi rei. O grande problema dos judeus com Jesus nas diversas profecias do messias do VT está no fato de o Messias ser também rei. Em contraste, cristãos aceitam a Jesus interpretando a profecia sobre o reinado com sendo o reino dos Céus. Seja como for, Jesus era um profundo conhecedor do VT (Jo 10:35, Mt 15:3, Mt 15:6, Mt 5:18, Mt 22:31,Mt 21:16, Mt 12:3, Lc 17:29, 32, Lc 11:51, Ma 12:26, Jo 6:31–51) e conhecia a passagem de Zc 9:9. Judeus alegam que a situação de Mt 21:4 foi forçada por Jesus em Mt 21:2, que claramente envia dois discípulos para procurar um jumento:

Enviou Jesus dois discípulos, dizendo-lhes: Ide a aldeia que aí esta diante de vós e logo achareis presa uma jumenta e, com ela, um jumentinho. Desprendei-a e trazei-mos. Mt 21:1,2

 10- Is 50:6

A próxima passagem refere-se a Jesus no Sinédrio. Apesar de nem Mateus, Marcos ou João fazerem qualquer associação dessa passagem a versículos do VT, muitos cristãos veem o cumprimento de Is 50:6 no versículo 67 de Mateus 26:

Então, uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e outros os esbofeteavam. Mt 26:67

Em Is 50:6, o profeta está falando de si mesmo e de Israel, como pode ser visto no primeiro versículo do mesmo capítulo:

Onde esta a carta de divórcio de vossa mãe, pela qual eu a repudiei? Ou quem é o meu credor, a quem eu vos tenho vendido? Eis que por causa das vossas iniquidades é que fostes vendidos, e por causa das vossas transgressões vossa mãe foi repudiada. Is 50:1

O profeta relata a situação de Israel, que se sente abandonada perante a Assíria. A segunda metade fala da concessão de Deus com Israel, já que não viu carta de divórcio com a nação. No versículo 4 entendemos como esta passagem poderia ser erroneamente associada a Jesus:

O Senhor Deus me deu língua de eruditos, para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado, uma palavra que os desperte. Is 50:4

11- Zc 11:13

Mateus associa o suicídio de Judas e a sua recompensa de 30 moedas de prata com o cumprimento de outra profecia em Jeremias:

Então se cumpriu o que foi dito por intermédio do profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço em que foi estimado aquele a quem alguns dos filhos de Israel avaliaram. Mt 27:9

Mateus se equivoca ao associá-la a Jeremias. Je 32:6-9 fala do primo de Jeremias, Hananeel. A passagem trata de 17 siclos, uma quantia não equivalente a 30 moedas de prata. Isso mostra que Mateus não é necessariamente uma fonte confiável. A passagem de Mateus 27:9 se refere na verdade a Zc 11:13:

Arroja isso ao oleiro, esse magnífico preço em que fui avaliado por eles. Tomai as trinta moedas de prata e as arrojei ao oleiro, na Casa do Senhor. Zc 11:13

O capítulo 11 trata do pastor que dá cabo dos três pastores que estão matando todas as ovelhas. Este novo pastor recebe 30 moedas de prata como pagamento. No versículo 14, o mesmo rompe a irmandade entre Judá e Israel. Ambas ações não foram atos de Jesus. A única semelhança, o valor de 30 moedas de prata, não trata de nenhuma intervenção divina, mas sim do valor de um escravo machucado (Ex 21:32). Judas recebeu 30 moedas por ter vendido Jesus como escravo.

12- Sl 22 e 31

Os últimos 3 versículos sobre o Messias profetizam três acontecimentos sobre a crucificação: os soldados apostarem as vestes de Jesus (Mt 27:35); os sacerdotes ridicularizando e atentando Jesus a sair da cruz (Mt 27:42, 43); e o clamor de Jesus antes de sua morte (Mt 27:46). Todas as três passagens aludem a Sl 22:

Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés. Posso contar todos os meus ossos; eles me estão olhando e encarando em mim. Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes. Sl 22:16, 17

Esta passagem no hebraico lê-se bem diferente:

Cães me cercam; malfeitores me rodeiam; Como o leão minhas mãos e minhas pernas. Posso contar todos os meus ossos; eles me estão olhando e encarando em mim. Sl 22:16

No MT, a referência “traspassaram” do versículo 16 não existe. Quando lida no hebraico, associá-la a uma profecia messiânica torna-se uma decisão subjetiva.

Com relação ao clamor de Jesus relatado por Mateus, o Salmo 22:1 foi escrito originalmente por Davi, muito perseguido em vida. Além disso, Lucas 23:46 cita Sl 31:5 como as últimas palavras de Jesus (Pai, nas tuas mãos te entrego meu espírito). João, único presente no momento de sua morte, relata, em Jo 19:30, Jesus dizendo “Está consumado”. Essa dissonância é uma forte evidência que as últimas palavras de Jesus foram acrescentadas por escribas ao transcreverem a Bíblia.

 Todas as principais passagens referentes ao Messias no evangelho de Mateus são ou uma interpretação subjetiva do próprio Mateus, aberta à debate, ou manipulação por parte dos escribas, acrescentando ou alterando palavras e, às vezes, até versículos em capítulos, ou ainda alegações equivocadas.

Muito cuidado deve ser tomado ao se fazer referências de versículos do VT no NT. Todo o contexto de um capítulo deve ser levado em consideração. Além disso, versões baseadas no MT são mais confiáveis.

Estupro no Antigo Testamento: como justificar a autoridade moral de Deus?

Setembro 7, 2009

TEXTO ESCRITO POR PEDRO IVO – BOSTON/EUA

O papel da mulher no AT é, no mínimo, desconfortável. Numa sociedade patriarcal e extremamente machista, as mulheres têm pouco valor. As leis sobre estupro em Israel são um bom exemplo – chegam ao ponto de uma mulher estuprada ser forçada a casar com seu agressor:

Se um homem achar moça virgem, que não está desposada, e a pegar, e se deitar com ela, e forem apanhados, então o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinqüenta ciclos de prata; e, uma vez que a humilhou, lhe será por mulher; não poderá mandá-la embora durante a sua vida. (Dt 22:28,29)

A mulher se torna um instrumento de punição para o homem. Nada mais que um instrumento…

As leis são tão unilaterais que chegam a ser absurdas para os padrões morais de hoje: enquanto um agressor é obrigado a casar com a vítima, esta deve ser apedrejada até a morte se não gritar por socorro caso o estupro ocorra dentro dos limites da cidade. A mulher só é perdoada dessa ofensa se for estuprada no campo, onde ninguém pode ouvi-la:

Se houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade e se deitar com ela, então, trareis ambos a porta daquela cidade e os apedrejareis até que morram; a moça, porque não gritou na cidade, e o homem, porque humilhou a mulher do seu próximo; assim, eliminarás o mal do meio de ti. (Dt 22:23,24)

A única condição para o agressor sofrer as conseqüências do estupro e ser condenado à morte se dá quando ele estupra uma mulher casada, pois, neste caso, ele humilhou o esposo. As leis são sempre escritas para os homens.

Há muitas controvérsias, mas até mesmo em relação ao culto a Deus o número de mulheres é indiferente (Lv 22:32). Para a cerimônia ser realizada, são necessários um mínimo de dez homens (minyan), o que poderia ser uma possível explicação para o machismo de Paulo nas cartas aos Coríntios com relação ao comportamento das mulheres dentro da igreja (1 Cor 14:34).

O ato de estupro era comum entre os israelitas. Em diversas batalhas de Israel com as tribos de Canaã, as mulheres eram um dos espólios de guerra, e muitas eram estupradas (Nm 31, Is 13:16, Zc 14:1,2). No livro de Números e no livro de Deuteronômio, Deus explica como Israel deve agir com relação às mulheres das tribos de Canaã:

Se a sua resposta é de paz, e te abrir as portas, todo o povo que nela se achar será sujeito a trabalhos forçados e te servirá. Porém, se ela não fizer paz contigo, mas te fizer Guerra, então, a sitiarás. E o Senhor, teu Deus, a dará na tua mão; e todos os do sexo masculino que houver nela passarás a fio da espada; mas as mulheres, e as crianças, e os animais, e tudo que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti. (Dt 20:11-14).

Nessa situação, somente as mais jovens e as virgens, que em sua maioria ainda eram adolescentes, eram poupadas:

Todas as meninas, e as jovens que não coabitaram com algum homem, deitando-se com ele, deixai-a viver para vós outros. (Nm 31:18)

A vida dessas mulheres não era fácil. Após serem levadas cativas, seus novos maridos tinham que raspar suas cabeças e cortar suas unhas antes de tomá-las como esposas (Dt 21:10-14). Para com as mulheres das poderosas nações de Canaã (os heteus, os amorreus, os cananeus e os ferezeus) não havia misericórdia – estas deveriam ser exterminadas junto com seus familiares (Dt 20:15).

Em Genesis, Abraão testa a misericórdia de Deus em Sodoma e Gomorra, e em toda a cidade os anjos de Deus encontram apenas uma família que apresenta condutas morais que valem a sua salvação, a família de Ló. Quando os anjos chegam para libertá-los, os homens da cidade querem tirar proveito dos anjos (Gn 19:1-4), mas Ló, como homem de Deus, oferece suas duas filhas virgens como oferta para os homens estuprá-las (Gn 19:8). Mais adiante, quando a família está fugindo de Sodoma e Gomorra, a esposa de Ló vira uma estátua de pedra simplesmente por curiosidade (Gn 19:26). Em seguida, as filhas de Ló embebedam seu pai (Gn 19: 31-38), e, aproveitando-se de sua embriaguez, deitam-se com ele para terem filhos. É a história de uma família que caberia num filme de comédia ou de terror? A mãe que morre por simples curiosidade; o pai que não dá valor para as filhas e as oferece para serem estupradas; as filhas que embebedam o pai para ter relações sexuais com ele e procriar. O que chama a atenção é: essa família sobrevivente era o símbolo de justiça em toda Sodoma e Gomorra!

O filho da primogênita dá origem aos moabitas. Estes, séculos mais tarde, são dizimados pelos israelitas na conquista de Canaã. Após a conquista dos moabitas, Israel separa os conquistados em duas linhas. Os da primeira linha são exterminados, e os da segunda são escravizados (2 Sm 8:2).

O filho da filha mais nova de Ló dá origem aos amonitas. Estes, séculos mais tarde, são também dizimados pelos israelitas na conquista de Canaã. Em princípio, Deus separa um pedaço da terra de Canaã aos filhos de Amon, como promessa à descendência de Ló (Dt 2:9), mas, por causa dos pecados dos filhos de Israel, Deus agita os moabitas juntamente com os amonitas darem uma lição aos israelitas (Jz 3:12,13). Após a batalha, a paz entre Israel e os filhos de Amon é quebrada. Durante todo o resto do AT os filhos de Amon, o legado do justo Ló (Gn 18:23-33), e os israelitas estão em constante guerra.

Desde Genesis até Jeremias, nada de positivo sai da descendência de Ló, e as atitudes do próprio Deus em todo esse contexto, como visto, são moralmente muito questionáveis.

No livro de Juízes, uma história semelhante à da família de Ló novamente ocorre. Um homem já de idade (Jz 19:16) hospeda um levita de Efraim (Jz 19:1) e sua mulher de Belém de Judá (Jz 19:20) em sua casa, em Gibeá. Naquela noite, benjamitas de má índole (Jz 19:22) atormentam a casa e querem tirar proveito dos visitantes e ter relações sexuais com o homem (Jz 19:22). O ancião, assim como Ló, num ato de “caridade” e “justiça”, oferece sua filha virgem e a esposa do levita para serem estupradas, com o fim de proteger o visitante:

Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; Violem-las e fazei delas o que melhor vos agrade;porém a este homem não façais semelhante loucura. (Jz 19:24)

É interessante perceber como em muitas traduções da Bíblia, nesse versículo e no versículo 22, as palavras de estupro são substituídas por um sinônimo menos chocante: “Humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade”. O ancião, ao perceber que os benjamitas não queriam escutá-lo, joga a esposa do levita aos benjamitas, que a estupram a noite inteira (Jz 19:25). De manhã, o ancião, ao encontrá-la semi-morta, em frente a sua casa, a corta em 12 pedaços, e envia cada membro do seu corpo a uma tribo de Israel como ofensa contra sua casa. Não há nenhuma empatia em relação ao trauma da esposa. O ancião, ao vê-la em frente a sua casa, quase morta, simplesmente pede que ela se levante e o siga (Jz 19:26-28). Quando ela não responde, ele a coloca na sua sela e a leva para ser fatiada (Jz 19:27,28). No capítulo seguinte, a história se torna mais esquisita: as tribos, ao receberem os pedaços da esposa de Belém de Judá,  saem para pelejar contra os benjamitas e assassinam quase trinta mil homens e destroem toda a cidade de Gibeá:

Os homens de Israel voltaram para os filhos de Benjamim e passaram a fio da espada tudo o que restou da cidade,  tanto homens como animais, em suma, tudo o que encontraram; e também a todas as cidades que acharam puseram fogo. (Jz 20:48)

De estupro para genocídio. Ao verem a conseqüência do seus atos, os israelitas tentam encontrar mulheres para os 600 benjamitas sobreviventes, para que essa tribo de Israel não seja exterminada. Assim, os israelitas saqueiam e assassinam todos os habitantes de Jabes-Gileade. A escolha dessa cidade se deu simplesmente porque seus moradores não participaram da chacina em Gibeá (Jz 21:8):

Por isso, a congregação enviou lá doze mil homens, dos mais valentes e lhes ordenou, dizendo: Ide e, a fio da espada, feri os moradores de Jabes-Gileade, e as mulheres e as crianças. Isto é o que haveis de fazer: a todo homem e a toda mulher que se houver deitado com homem destruireis. (Jz 21:10,11)

As 400 virgens encontradas em Jabes-Gileade são entregues aos benjamitas para repovoarem a tribo. E para os 200 benjamitas restantes? Eles seqüestram as mulheres da cidade de Silo durante uma solenidade ao Senhor (Jz 21:19):

Assim fizeram os filhos de Benjamim e levaram as mulheres conforme o número deles, das que arrebataram das rodas que dançavam; e foram-se, voltaram a sua herança, reedificaram as cidades e habitam nelas. (Jz 21:23)

Feita a leitura bíblica, fica novamente a pergunta que não cala: o que pode ser aproveitado para passarmos para nossos filhos? Talvez a leitura de Mein Kampf, de Adolf Hitler, seja menos tormentosa.

Extermínio no Antigo Testamento: como justificar a autoridade moral de Deus?

Setembro 2, 2009

TEXTO ESCRITO POR PEDRO IVO – BOSTON/EUA

Um dos principais temas do Pentateuco é a conquista de Canaã pelos israelitas. As histórias bíblicas a respeito vão desde a primeira pacífica ocupação por Abraão, quando chamado de Ur dos Caldeus(Gn 11:31), até o retorno do povo, mais de aproximadamente 1000 anos depois, sob o comando de Josué. Essas histórias contêm lições que são ensinadas nos dias de hoje como modelos a serem seguidos pelos cristãos. Desde antes de Abraão, o livro de Genesis adota Canaã como a Terra Prometida para todos os filhos de Abraão:

Disse-lhe mais: Eu sou o senhor que te tirei de Ur dos Caldeus , para dar-te por herança esta terra. (Gn 15 :7)

A Bíblia leva a crer que a nação de Israel estava predestinada a viver nessa terra. Mais adiante, no versículo 18, Deus fala inclusive das limitações geográficas da Terra Prometida, que se estendia desde o rio do Egito ao rio Eufrates.

As ordens de Deus apontam para valores morais questionáveis. Em suma, os israelistas deviam exterminar todas as nações que residissem em Canaã. Nos versículos 19 e 20 de Genesis, Deus fala dos 10 povos que nela habitavam: os queneus, os quenezeus, os cadmoneus, os heteus, os ferezeus, os refrains, os amorreus, os cananeus, os girgaseus e os jebuseus. Em nenhum momento a ideia de que os judeus viveriam pacificamente com esses povos está presente. Desde o início, Deus já demonstra sua insatisfação com os  amorreus, dando a ideia de que no devido momento eles iriam pagar pelos seus pecados:

Porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus. (Gn 15:16)

No restante do livro de Genesis, Deus não fala de forma tão explícita de sua insatisfação com os outros povos que ali habitavam. Na verdade, usando a Bíblia como fonte, pouco se sabe sobre essas nações, além do fato de que não serviam ao Deus de Israel. Esse parece ser o único motivo, com exceção dos amorreus, para o extermínio (Ed 9:1). Por exemplo, quando Abraão já é de idade e pede a seu servo Paulo para buscar uma esposa para seu filho Isaque, Abraão explica de forma clara ao seu servo que não quer nenhuma esposa dos cananeus:

Para que eu te faça jurar pelo Senhor, Deus do céu e da terra, que não tomaras esposa para meu filho das filhas dos cananeus, entro os quais habito. (Gn 24:3)

Apesar de serem 10 os povos inicialmente mencionados em Genesis, as instruções de Deus são para dizimar os sete mais poderosos, para ficar claro que não foi pela força dos homens de Israel, mas por ação divina que a terra foi conquistada:

Quando o Senhor, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerous e mais poderosas do que tu; e o Senhor, teu Deus, as tiver dado de diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas. (Dt 7:1,2)

É impressionante a frieza das palavras de Deus. Ainda mais se considerarmos a Bíblia um “livro sagrado”. Acontecimentos semelhantes de nossa época (como as faxinas étnicas na ex-Iugoslávia, em Ruanda etc.) são duramente questionados pela sociedade mundial. Durante os próximos 14 livros da Bíblia aprendemos sobre a dura batalha de Israel na conquista da terra prometida e a difícil eliminação dos povos que ali residiam, especialmente os amorreus e cananeus. São históricas sobre massacres de povos!

Analisar a trajetória de cada povo durante esses livros da Bíblia pode ser extremamente complicado, já que de Abraão a Salomão há um intervalo de mais de mil anos. Muitos povos se misturam com outros povos, e outros que ainda não existiam em Genesis surgem em várias batalhas sob o comando de Josué e Calebe. Aqui, vamos nos ater aos 10 povos de Gn 15:19,20.

Comecemos pelas nações pequenas. Os queneus são mencionados 11 vezes na Bíblia (versão NASB ou Almeida) em 10 versículos. Após Gn 15:18-21, eles não são mencionados até Nm 24:21-23, quando Deus profetiza através de seu servo Balaão que eles deveriam ser exterminados. O versículo começa de forma positiva, já que no livro de Juízes aprendemos que a esposa e a família de Moises são quenues (Jz 1:16), e que inclusive os queneus saíram juntos com Israel do Egito em direção à Canaã (Jz 1:16). Mas o destino dos queneus prevista por Balaão é atemorizante:

Segura está a tua habitação, e puseste o teu ninho na penha. Todavia, o queneu será consumido. (Nm 24: 21, 22)

O livro de Números foi escrito por Moisés entre os anos de 1490 e 1451 a.C., o que significa que a promessa de extermínio só foi cumprida quase 400 anos depois, em 1 Sm 27:10, quando Davi deixa claro que, em sua campanha, exterminou (1 Sm 30:29) completamente não somente os queneus, como outras nações menores, como os jerameelitas:

Davi feria aquela terra, e não deixava com vida nem homem nem mulher, e tomava as ovelhas, e os bois, e os jumentos, e os camelos, e as vestes; Davi não deixava com vida nem homem, nem mulher, para os trazer a Gate. (1Sm 27:10,11)

Estranhamente, os queneus são o único povo diante do qual primeiramente Davi mostra misericórdia (1 Sm 15:6) pela memória de união no exílio. Mas 12 capítulos depois eles são exterminados.

Os quenezeus e os cadmoneus são mencionados como uma nação a ser destruída apenas em Gn 15:19. Os quenezeus provavelmente habitaram a Síria, e os cadmoneus eram uma tribo que habitava no nordeste da Palestina na época de Abraão. Ambas provavelmente se misturaram com outros povos, já que elas não são mencionadas mais na época de Josué (Ex 3:8, Jos 3:10). Os quenezeus são mencionados outras 3 vezes, mas apenas pelo fato do pai de Calebe ser quenezeu (Nm 31:12, Js 14:6 e Jos 14:14). Fora isso, nada se sabe a respeito deles.

Há muita confusão a respeito dos refrains.  Em muitas versões da Bíblia são também chamados de refaitas, e em grande parte da Bíblia são mencionados por meio do nome de Ogue, rei de Basã, descendente dos refrains. Sabe-se que eram um povo de gigantes que viviam ao leste do Jordão. Sob o nome refraim são mencionados 18 vezes na Bíblia, e aparentemente foram quase exterminados por povos vizinhos ainda em Genesis:

Ao décimo quarto ano, veio Quedorlaomer e os reis que estavam com ele e feriram aos refrains em Astarote-Carnaim. (Gn 14:5)

No livro de Deuteronômio descobrimos o motivo pelo rápido extermínio dos refrains antes mesmo da conquista de Israel: a terra em que habitavam fora prometida aos filhos de Ló:

E chegarás até defronte dos filhos de Amom; não os molestes e com eles não contendas, porque da terra dos filhos de Amom te não darei possessão, porquanto aos filhos de Ló a tenho dado por possessão. Também esta é considerada terra dos refains; dantes, habitavam nela refains, e os amonitas lhes chamavam zanzumins. (Dt 2:19,20)

Sob o nome de Ogue, após Israel conquistar diversas tribos menores (Dt  2), logo no início da conquista de Canaã em direção a Jerusalém, os refrains saem em direção a Israel para pelejar (Dt 3:1). Quando Ogue foi de encontro a Israel, os descendentes dos refrains foram exterminados, e Basã, mais tarde, se tornou território da tribo de Manasses (Dt 3:13):

Deu-nos O senhor, nosso Deus, em nossas mãos também a Ogue, rei de Basã, e a todo seu povo; e ferimo-lo, até que lhes não ficou um sobrevivente. Tomamos todas as suas cidades; nenhuma cidade houve que lhes não tomássemos: sessenta cidades… destruímo-las por completo, cada uma de suas cidades, com os seus homens, suas mulheres e crianças. Porém, todo o gado e o despojo das cidades tomamos para nos, por presa. (Dt 3:3-7)

Além de Gn 15:19-20, os ferezeus  são mencionados mais 23 vezes na Bíblia. Os ferezeus viviam na Palestina (Js 9:1 e Js 11:3). Das 23 vezes em que são mencionados, em 11 eles são apenas mencionados como um dos povos que devem ser exterminados de Canaã. O extermínio dos ferezeus se inicia quando as tribos de Manasses e Efraim queixam-se a Josué por não terem recebido terra suficiente como herança (Js 17:14,15). Nas demais 11 vezes em que são mencionados, duas acontecem em Jz 1:4,5. Fica claro que eles estavam sendo exterminados:

Subiu Judá, e o Senhor lhe entregou nas mãos os cananeus e os ferezeus. E feriram aos cananeus e aos ferezeus. (Jz 1:4,5)

Outras duas vezes em que são mencionados são em 1 Re 9:20 e  2 Cr 8:8,  onde o mesmo acontecimento é relatado, mas apenas de forma mais abrangente. Quando Salomão reinou, já 200 anos após Israel ter iniciado a conquista de Canaã, e mais de 700 anos depois da promessa, como Israel não conseguiu exterminar os ferezeus, ele fez do restante do povo escravos, inclusive as crianças:

Quanto a todo o povo que restou dos amorreus, heteus, ferezeus, heveus e jebuseus, e que não eram dos filhos de Israel.  A seus filhos, que restaram depois deles na terra, os quais os filhos de Israel não puderam destruir totalmente, a esse fez Salomão trabalhadores forçados. (1Re 9:20)

Além de Gn 15:19-20, os heteus são mencionados outras 47 vezes. Se sabe que viviam nas montanhas, como está escrito em Nm 13:29. Das 47 vezes em que são mencionados, apenas vinte falam especificamente dessa nação, incluído a passagem mencianda no livro de Números. Sabe-se que Abraão e Sara foram sepultados na terra dos heteus (Gn 25:9,10) e que Esaú casou mulheres dos heteus (Gn 26:34). A história mais conhecida dos heteus é a de Betsebeba e de seu marido Uriah, o heteu, em que Davi, desejando Betseba para si, envia Uriah para a linha de frente da batalha contra Raba, a cidade amonita para morrer (2 Sm 11:6-24). É uma das lições dominicais mais conhecidas sobre o rei Davi. As batalhas entre os israelitas e os heteus começou quando após Israel ter conquistado a cidade de Ai (Js 8:24,. os heteus preocupados foram em direção à Israel para pelejar (Js 9:1). Em outra passagem, Js 1:4 apenas confirma Gn 15:19, os heteus estão na terra prometida. Em Js 24:11 fica claro que eles estão sendo dizimados, apesar de ainda viverem entre os israelitas. O destino dos heteus foi o mesmo dos ferezeus, como já citado acima, em 1 Rs 9:20.

O povo seguinte são os girgaseus, outro das sete poderosas nações de Canaã. Apesar de serem mencionados somente 7 vezes, sabe-se que a nação foi completamente dizimada, e sua cidade foi mantida intacta para ser usada pelos próprios israelitas:

Dei-vos a terra em que não trabalhastes e cidades que não edificastes, e habitais nelas; comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes. (Jos 24:13)

Os jebuseus, descendentes de Cam, filho de Noé, são mencionados 25 vezes, e são a sexta das sete poderosas nações de Canaã; e assim como os heteus e os amorreus, viviam nas montanhas (Nm 13:29). Mais especificamente, eles viviam em Jerusalém, e após escutarem sobre a derrota de Ai, cidade cananéia, unem-se aos heteus para derrotar Israel. A Bíblia relata três tentativas para eliminá-los que não deram certo. A primeira foi em Js 15:63:

Não puderam, porém, os filhos de Judá expulsar os jebuseus que habitavam em Jerusalém, assim, habitavam os jebuseus com os filhos de Judá em Jerusalém ate ao dia de hoje. (Js 15:63)

A segunda vez , sob o comando de Calebe, como está escrito em Jz 1:20-36. Com exceção do homem que entregou a entrada de Betel para os israelista, supostamente por ser de difícil acesso, já que a cidade se encontrava nas montanhas, nenhuma misericórdia foi mostrada para com o resto dos jebuseus:

Mostrando-lhes ele a entrada da cidade, feriram a cidade ao fio da espada; porém, aquele homem e a toda a sua família deixaram ir. (Jz 1:25)

A cidade foi reconstruída pelo homem e sua família sob o nome Luz, provavelmente em homenagem a Betel – que era conhecida como Luz (Gn 28:19, Jz 1:26). Provavelmente essa mesma família, cujo homem entregou todos os seus compatriotas, repovoou os heteus, e estes voltaram a ser uma nação com vários reis na época em que Salomão reinava sobre Israel.

A terceira tentativa foi sob o comando de Davi, que prometeu promoções para os primeiros que atravessassem os muros da cidade (1 Cr 11:4-6). Apesar de todas as tentativas de destruí-los, assim como ocorreu com os girgaseus, outras cidades dos jebuseus foram completamente dizimadas e entregues aos israelitas intactas. O mesmo ocorreu com as cidades de outros povos:

Os habitantes de Jerico pelejaram contra vós e também os amorreus, os ferezeus, os cananeus, os girgaseus, os heveus e os jebuseus; porém os entreguei nas vossas mãos. Dei-vos a terra em que não trabalhastes e cidades que não edificastes, e habitais nelas; comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes. (Jos 24:11-13)

O restante dos jebuseus são finalmente escravizados sob o reinado de Salomão, como está explícito em 1 Rs 9:20.

Dos dez povos, os amorreus são os mais mencionados: 87 vezes. O primeiro motivo de extermínio dos amorreus foi por causa de sua descendência: Ham, filho de Noé, ao ver seu pai bêbado e pelado, chamou seus irmãos pra verem a cena. Mas Sem e Jafe pegaram roupas e vestiram seu pai. Quando Noé descobriu o que tinha acontecido, amaldiçoou Ham e disse:

Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos. (Gn 9:25)

Por esse motivo, os amorreus estavam destinados a serem exterminados e suas terras a servirem por herança à Israel (Am 2:9,10). Foram várias as batalhas de Israel para tentar eliminar os amorreus (Jos 10 e 24, 2 Sm 21: 2, Am 2:9), sendo a primeira logo no início da conquista, quando Israel pede ao rei Siom para passar por sua terra ( Nm 21: 21-24). Como os amorreus viviam em ambos os lados dos rio Jordão (Dt 4:49) e Mar Morto (Gn 14:7), foi extremamente difícil sua completa eliminação. A maior batalha de Israel contra os amorreus acontece sob o comando de Calebe logo após a morte de Josué. Israel exterminou os amorreus e seus 5 reis em Js 10:25-27:

Trazidos os reis a Josué, chamou este todos os homens de Israel e disse aos capitães do exército que tinham ido com ele: Chegai, ponde o pé sobre o pescoço destes reis. E chegaram e puseram os pés sobre os pescoços deles.

Depois disto, Josué, ferindo-os, os matou e os pendurou em cinco madeiros; e ficaram eles pendentes dos madeiros até à tarde.

Ao pôr-do-sol, deu Josué ordem que os tirassem dos madeiros; e lançaram-nos na cova onde se tinham escondido e, na boca da cova, puseram grandes pedras que ainda lá se encontram até ao dia de hoje. (Js 10:25-27)

Nesta ocasião, Israel tomou somente as terras ao leste do Jordão. Durante o reinado de Saul,os amorreus ainda eram um constante problema. Saul, sem êxito,  tentou eliminar os descendentes dos amorreus, os gibeonitas (2 Sm 21:2). O fim dos amorreus foi o mesmo dos heteus, ferezeus, heveus e jebuseus, o restante do povo foi escravizado (1Rs 9:20).

Os cananeus ocorrem 71 vezes no AT, e são usados também para descrever as demais nações (Jz 1:27) que ali viviam, o que dificulta traçar a sua eliminação durante a conquista de Canaã. A primeira vez em que são mencionados está em Gn 24:3, quando Deus, através de Isaque, mostra sua insatisfação com essa nação. Na primeira batalha de Israel com os cananeus, os israelitas perdem devido aos seus pecados. Quando invadem a sua terra, os cananeus vão em direção à Israel para pelejar e vencem (Nm 14:43), eliminando a primeira geração de Israel, que não deveria entrar em Canaã (Nm 14:30). Assim como os amorreus, a principal batalha de Israel com os cananeus ocorre no livro de Josué, quando muitas de suas cidades sobrevivem aos ataques e seus sobreviventes são escravizados:

Depois da morte de Josué, os filhos de Israel consultaram o SENHOR, dizendo: Quem dentre nós, primeiro, subirá aos cananeus para pelejar contra eles? (Js1:1)

Quando, porém, Israel se tornou mais forte, sujeitou os cananeus a trabalhos forçados e não os expulsou de todo.( Js 1:28)

Muitas outras menores nações foram completamente exterminadas pelos israelitas durante a longa e sangrenta ocupação de Canaã, e as que não foram exterminadas foram escravizadas. Nações como os gesuritas, os gersitas, e os amalequitas foram completamente eliminadas:

E subia Davi com os seus homens, e davam sobre os gesuritas, e os gersitas, e os amalequitas; porque antigamente foram estes os moradores da terra que se estende na direção de Sur, até à terra do Egito.. Davi feria aquela terra, e não dava vida nem a homem nem a mulher, e tomava ovelhas, e vacas, e jumentos, e camelos, e vestes. (1 Sm 27:8,9)

A atitude de Israel perante todos os povos que residiam em Canaã era a mesma: todos deveriam ser exterminados, homens, mulheres, crianças, inclusive os animais – esta era mensagem do próprio Deus:

Destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos.(1 Sm 15:3)

Assim fez Davi em muitas ocasiões:

E Davi não deixava com vida nem a homem nem a mulher, dizendo: Para que porventura não nos denunciem, dizendo: Assim Davi o fazia. E este era o seu costume por todos os dias que habitou na terra dos filisteus.(1 Sm 27:11)

É interessante notar que o desgosto de Deus com Saul começou quando Saul não cumpriu a Sua ordem em 1 Sm 15:3, e deixou os animais e cidades intactos, apesar de ter eliminado toda a população:

E Saul e o povo pouparam a Agague, e ao melhor das ovelhas e das vacas, e as da segunda ordem, e aos cordeiros e ao melhor que havia, e não os quiseram destruir totalmente; porém a toda a coisa vil e desprezível destruíram totalmente. Então veio a palavra do SENHOR a Samuel, dizendo: Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras. (1 Sm 15:9-11)

O “escolhido”, o “ungido” tinha que ser um frio assassino?

Mais de 3500 anos após o retorno de Israel sob o comando de Moisés, os israelitas ainda tentam eliminar as populações que residem em Israel, os mais ortodoxos nem sequer consideram a Palestina e seus habitantes como um território.

Após a leitura bíblica, vêm as perguntas que não calam: que Deus é esse que incentiva e premia a morte, o genocídio e a limpeza étnica (Dt 20:11-15)? Que ensinamentos existem aí para levarmos para nossos filhos? Se tais ordens são ordens de Deus, Deus pode ordenar qualquer coisa! Qualquer ato humano, do melhor ao pior e mais horrendo, é legitimável perante Deus. Portanto, onde está a autoridade moral de Deus?

Minha tese sobre o Reino dos Céus

Junho 26, 2009

Vou ser breve e objetivo. Deixando de lado a questão de se Deus existe ou não, vou expor uma tese sobre salvação e paraíso que tem fundamento bíblico e que acho bem mais provável do que a tese tradicional (a de que todos os que tiverem fé e boas obras serão salvos).

A idéia-base da tese está na conhecida frase de Nietzsche: “Povo é um rodeio que a natureza faz para chegar a seis ou sete homens brilhantes”. Em outras palavras, trazendo para o nosso contexto: a quantidade de pessoas que existem hoje no planeta é um ruído ou lixo necessário para que Deus chegue a alguns poucos homens que realmente podem ser considerados um orgulho criativo. O que eu quero dizer com isso? Que Deus é seletivo e só vão entrar nos Ceús esses homens brilhantes.

O Antigo Testamento é uma aula de como Deus não se importa com cada pessoa individualmente. Há vários exemplos no episódio do Êxodo, quando o povo cruza o deserto, de que Deus mata muitos por causa do erro de poucos. Muitos pagaram a conta inocentemente. Em Números há um episódio em que o povo se queixou de Deus e Ele ateou fogo e consumiu as extremidades do arraial. O mesmo aconteceu quando hebreus foram pegos em relações sexuais com estrangeiras. Novamente fogo e vários morreram por causa do erro de poucos. Imagine se vc estivesse em uma dessas cabanas, na sua, inocentemente… Teria morrido queimado porque algum colega seu fez besteira. Se a bíblia diz que Deus não muda, então não adianta vir com aquela história de que no Novo Testamento, com Jesus, as coisas mudaram. Não mudaram. A bíblia diz que Deus não muda.

No decorrer da história judaica, Deus vai selecionando poucos homens brilhantes (profetas) para a execução de suas ordens, e pouco se importa com as consequências para muitas outras pessoas. Quando o povo hebreu foi escravizado no Egito, a bíblia diz que Deus havia se esquecido deles. Teve que aparecer um homem brilhante, Moisés, para que Deus se “lembrasse” do povo.

Resumindo… o Reino dos Céus é um lugar para poucas pessoas. Pouquíssimas. É lugar para os selecionados, os escolhidos. Por que Deus encheria os céus com uma multidão inútil e chata de crentes, apenas porque eles “acreditaram”, tiveram “fé” e seguiram uma vida de renúncias? O que Deus ganharia em ter esse bando de puxa-sacos ao seu lado que mal conseguem articular um argumento? Havia um monte deles lá no deserto e Ele jogou fogo! Por que matou inocentes? Porque não eram escolhidos. Se Moisés ou Josué estivessem em alguma daquelas cabanas, certamente Ele os teria poupado, jogando fogo em outra cabana.

Portanto, com fundamento bíblico, defendo que você, crente, mesmo seguindo diligentemente os mandamentos, pode não subir aos céus. Se vc não é um selecionado, não vai subir. Se vc não é um homem ou mulher brilhante, mas apenas mais um ruído da natureza, mais um no meio da massa, nem adianta ir para a igreja todos os domingos. Deus quer ao seu lado, nos céus, suas obras-primas! Nisso Ele ganharia, pois não precisaria mais carregar o peso de sua solidão tendo ao seu lado homens brilhantes com quem compartilhar as grandes idéias da eternidade!

Deus? Onde? Quando?

Fevereiro 2, 2009

Uma questão ainda me intriga até os dias de hoje: a mente humana tem condições de criar um Deus? Biólogos como o Richard Dawkins vêem na religião um subproduto da evolução. Será que o pensamento abstrato não seria um exemplo de complexidade irredutível, o que dificultaria a sua compreensão por meio da evolução? Esse é um campo rico que religiosos em geral poderiam explorar, mas parece que ninguém se interessa. A mediocridade não deixa! Bem, vou deixar aqui a minha contribuição.

 

Para o biólogo Edward O. Wilson, a mente humana evoluiu para acreditar em Deus. Ele sugere que a busca de Deus pelo homem não passa de uma herança genética dos nossos antepassados. Segundo ele:

 

A religião é uma conseqüência normal da evolução genética do cérebro. Em primeiro lugar, precisamos concordar que não há nenhuma evidência da existência de uma vida transcendental. Já os estudos sobre o comportamento humano indicam que nossa inclinação para a religião pode ter evoluído do comportamento de submissão animal. Explico: em bandos de macacos rhesus, por exemplo, o macho dominante do grupo caminha firmemente com a cauda e a cabeça erguidas, enquanto os macacos dominados mantêm a cabeça e a cauda baixa, em sinal de respeito ao líder do bando. Estar subordinado a um líder dá a esses animais mais proteção contra os inimigos e garante a eles maior acesso aos alimentos e ao abrigo. Qualquer cientista comportamental que viesse de outro planeta estudar o homem perceberia facilmente a semelhança entre esse comportamento de submissão e a tendência humana de se submeter a um Deus.

 

É uma tese aceitável? Fazer um nexo entre o comportamento de submissão animal e a tendência humana de se submeter a outros homens é uma ponte razoável, mas incluir a submissão a um ser transcendental parece ser um salto muito maior e que foge à propriedade da comparação. O conceber o transcendental deve ser separado do se submeter a ele. A grande pergunta, que intriga a mente de mitólogos, filósofos, antropólogos e até biólogos, é: como o cérebro conseguiu conceber algo sobrenatural, transcendental, fora da natureza? Quando e como se deu esse salto na evolução cerebral humana? Essa concepção advém do que antropólogos chamam de inteligência simbólica; a mesma utilizada para o desenvolvimento da arte.

 

 

O fato de um homem pintar, nas paredes de uma caverna, animais que vê em seu mundo tridimensional diário é uma coisa; reproduz-se uma experiência sensível. Mas conceber um ser sobrenatural, fora desse mundo, inexistente, é outra; é a inteligência simbólica levada às suas últimas conseqüências, literalmente!

 

Se a tese de Wilson estiver correta, ou seja, se a mente humana tiver de fato evoluído para acreditar em Deus, não deveriam as perguntas que as crianças fazem em seus primeiros anos de vida refletir essa evolução psicológica? Mas não é isso o que se observa na prática. Esse nível de sofisticação da inteligência simbólica está ausente, o que indica que a idéia do sobrenatural foi acrescentada a elas com a experiência. Como observou Piaget, no primeiro estágio de teorização, as crianças supõem-se pré-existentes, mas suspeitam que os pais devem ter algo a ver com o mistério. O mitólogo Joseph Campbell levantou algumas perguntas interessantes feitas por crianças:

 

 

“Quem fez o sol?” (criança de dois anos e meio).

“Quem coloca as estrelas no céu à noite?” (três anos e meio).

“De onde vêm os ovos?” ( dois anos e três meses).

“Papai, havia pessoas antes de nós?” “A terra já existia antes de haver pessoas nelas?” “Como ela (a terra) veio parar aqui se não havia ninguém para fazê-la?” (dois anos e meio).

 “Houve uma mãe antes da primeira mãe?” (quatro anos e cinco meses)

“As pessoas voltam a ser bebês quando ficam muito velhas?” (quatro anos e dez meses). 

 “Quando a gente morre, a gente volta a crescer?” (cinco anos e quatro meses).

 

 

Será que a imagem querida da figura parental, que tudo sabe e tudo pode, é simplesmente transferida para a difusa imagem de um Deus antropomórfico? Muitos psicólogos assim acreditam. Mas não é o que está presente na mente infantil, como se observou acima. É possível que façam a associação do pai com o Deus antropomorfizado, mas a concepção em si do Deus elas não fazem, apesar de já conceberem a possibilidade de vida após a morte, através da idéia de “voltar a ser bebê depois de velho” ou “voltar a crescer depois da morte”. São construções lógicas dentro de uma concepção cíclica da vida. Mas a idéia de Deus é uma concepção dada de fora, já fabricada.

 

 

A inteligência infantil faz transparecer que a visão cíclica da vida é inata. A suposição da pré-existência, como já apontava Piaget, e a volta a um estágio anterior depois da morte são idéias já presentes na mente infantil. Portanto, conceber a vida numa lógica de princípio, meio e fim não parece ser inata. Esse tipo de concepção veio ao homem através da cultura cristã. A cultura grega, anterior, concebia a existência de forma cíclica, assim como fazem as sociedades orientais. Quem inventou um começo e um fim para a História foram os semitas e a cristandade!

 

 

A filosofia oriental não dá lugar à mudança, à transformação. A História não é elemento importante na cultura oriental. Antes de Cristo, na cultura ocidental, as obras históricas de Heródoto, Tucídides e Políbios nos permitem observar que a História era concebida sob o signo da memória e da dupla determinação da fortuna, isto é, da contingência que percorre as ações humanas, e da presença de causas que determinam o curso dos acontecimentos independentemente da vontade humana. Resumindo, o homem não fazia a História; ele era objeto dela.

 

 

Por que na mente humana a idéia da existência cíclica é inata? Porque é mais simples, exige menor nível de abstração intelectual. A natureza sempre escolhe os caminhos mais simples e lógicos para se desenvolver. Nada se cria, tudo se transforma! Portanto, o pensamento linear parece ser, biologicamente falando, artificial. Foi acrescentado pela experiência, pela cultura.

 

 

Mas a pergunta ainda não calou: de onde veio a propriedade sobrenatural atribuída a um ser se não existem indícios sensíveis de sua existência? Como foi feita a conjugação do Não-Ser com o Ser? Conhecer como evoluiu a mente humana, desde seus primórdios, ajudaria a responder a pergunta?

 

Há cerca de 5 milhões de anos temos, pela primeira vez na História, a presença de um animal cuja vida se baseava não só no instinto, mas também na inteligência. Eram os australopitecos – semente da espécie humana. Quando deixaram de ser herbívoros para se tornarem carnívoros, seus intestinos diminuíram, houve uma afinação da caixa torácica e, conseqüentemente, surgiram os primeiros hominídeos de cintura fina. Além disso, o rosto ficou mais fino, já que a face não precisava mais dar tanta ênfase para a força de mastigar a dura dieta vegetal das savanas africanas. Poderíamos chamar esse fenômeno de “feminização do hominídeo”? Não teria sido esse fenômeno metaforicamente descrito em Gênesis por meio da cena clássica da costela retirada do homem (redução da caixa torácica com a mudança da dieta alimentar) e formação da mulher (figura hominídea de rosto e cintura mais finas)?

 

Há mais proteínas num rato do que numa raiz: as sobras da dieta alimentar possibilitaram o crescimento do cérebro. Com o rosto mais fino, a face também deu mais ênfase ao tamanho do cérebro. Por volta de 1,8 milhão de anos atrás temos o homo erectus: alto, magro, rápido e com cérebro grande. Graças à revolução alimentar, inaugurou a fase de fabricação de ferramentas; o que indica a presença, pela primeira vez, de raciocínio abstrato, já que a fabricação desses utensílios pressupõe uma noção de futuro. O surgimento do “homem tecnológico” fez com que os dentes fortes de antes fossem substituídos por ferramentas!

 

Um outro tipo de inteligência começa a aparecer também: a inteligência social. Os hominídeos percebem que possuem mais chances de sobrevivência se permanecerem mais unidos, fato que faz surgir os primeiros rudimentos da linguagem. Há resquícios do padrão de linguagem do homo erectus nas vozes das crianças pequenas, de 1 a 2 anos de idade. Elas nascem com a laringe mais alta, o que produz aquela característica fala infantil, também chamada de protolinguagem.

 

Freud certa vez fez uma relação interessante entre evolução da inteligência e evolução da linguagem. Ambas estão intrinsecamente relacionadas:

 

Em povos primevos, deparamo-nos com o fenômeno mental que descrevemos como sendo uma crença na “onipotência de pensamentos”. Em nosso juízo, esse fenômeno reside numa superestimação da influência que nossos atos mentais (intelectuais) podem exercer na alteração do mundo externo. No fundo, toda a magia das palavras encontra aqui seu lugar, e a convicção do poder ligado ao conhecimento e à pronúncia de um nome. A “onipotência de pensamentos” foi expressão do orgulho da humanidade no desenvolvimento da fala, que resultou em tão extraordinário avanço das atividades intelectuais. Escancarou-se o novo reino da intelectualidade, no qual idéias, lembranças e inferências se tornaram decisivas, em contraste com a atividade psíquica inferior que tinha como seu conteúdo as percepções diretas pelos órgãos sensórios. Esse foi, indiscutivelmente, um dos mais importantes estádios no caminho da hominização.

 

Se Freud estiver certo, então o desenvolvimento da inteligência simbólica pode ter se dado graças ao desenvolvimento da fala.

 

 

Por volta de 200 mil anos atrás, já se testemunhava que o homo neanderthalensis possuía um cérebro tão grande quanto os nossos atuais. Eles foram os primeiros a começar a enterrar os seus mortos, garantindo a sua volta ao útero, para que, talvez, renascessem. Não há nada de risível ou absurdo nessa idéia, pois todos nós (hoje ocidentais cristãos), por volta dos quatro ou cinco anos de idade, exteriorizávamos isso de forma extremamente lógica e espontânea. Lembra-se das perguntas das criancinhas no início do texto?

 

Há 100 mil anos, a Terra abrigava três tipos de humanos: os homo neanderthalensis (Europa), os homo sapiens (África) e os homo erectus (Extremo Oriente). Hoje a Terra só tem um tipo. O que aconteceu? O que fez a diferença? Provavelmente o cérebro!

 

Por volta de 40 mil anos atrás, época em que os humanos atingiram a Austrália, aconteceu a primeira Revolução Tecnológica da História. Surgiram mais ferramentas, e feitas de materiais mais diversificados, como ossos, chifres e marfim. Pouco mais tarde, por volta dos 30 mil anos, surge a arte. Nessa época, entre 40 e 30 mil, também ocorre o primeiro encontro entre homo sapiens e homo neanderthalensis, na Europa. Será que há alguma relação entre o salto intelectual da mente e o confronto?

 

Cientistas acreditam que a mudança na mente ocorrida há 40 mil anos, que ocasionou grande mudança cultural a partir de então, está relacionada à mudança na natureza da linguagem. Parece que Freud estava certo! Os homo sapiens tinham laringes mais baixas, permitindo que os músculos da boca pudessem articular maior variedade de sons. Já os homo neanderthalensis, como a maior parte dos mamíferos, possuíam laringes mais altas. Isso significa que os homo sapiens tinham algo mais avançado do que os neanderthalensis: gramática e sintaxe! Isso também significa que a troca de idéias entre os sapiens era mais sofisticada do que entre os neandertais. O resultado foi a vitória da inteligência sobre a força. Os neandertais desapareceram do mapa. Até hoje, no outro lado do mundo, não se sabe por que o homo erectus tornou-se extinto na Ásia.

 

 

No entanto, não há sinais de alteração cerebral nesses anos. O cérebro não se alterou em tamanho nem há sinais de uma reorganização cerebral radical. Isso significa que não houve salto evolutivo no cérebro no período de 40-30 mil anos atrás. Como explicar então a Revolução Tecnológica? Como explicar a arte? De fato, o homem já vinha desenvolvendo uma inteligência simbólica desde a África (por volta de 100 mil anos atrás) com o uso do ocre. Não foi uma aparição repentina. Mas tanto a arte como a técnica deram um salto na Europa nos 40-30 mil anos. E por que Europa?

 

A resposta parece simples, como todo bom economista já deve ter percebido: a concorrência entre sapiens e neanderthalensis foi a causa do salto artístico e tecnológico. O poder da linguagem do povo das laringes baixas destruiu os músculos dos laringe-alta.

 

Há seis parágrafos atrás, eu havia dito que, se Freud estivesse certo, então o desenvolvimento da inteligência simbólica poderia ter se dado graças ao desenvolvimento da fala. Parece que agora temos fortes indícios de que realmente isso é verdade.

 

 

De 30.000 a 10.000 a.C., após a revolução intelectual dos 40-30 mil, dominou a Terra um tipo de ser humano novo e superior aos anteriores, chamado de Cro-Magnon. Existem provas substanciais de que ele tinha idéias muito evoluídas de um mundo com aspectos sobrenaturais. Dispensava mais cuidados aos corpos dos defuntos do que o homem de Neanderthal, pintando os cadáveres, dobrando-lhes os braços sobre o coração e depositando pingentes, colares e armas ricamente lavradas em suas sepulturas.

 

Alguns defendem que o homem de Cro-Magnon formulou ainda um complicado sistema de magia simpática, destinada a aumentar suas provisões de alimentos. Ela baseava-se no princípio de que a imitação de um resultado desejado há de acarretar esse resultado. Aplicando esse princípio, o homem pintava murais em suas cavernas, representando, por exemplo, a capturas de renas na caça. Também modelava bisões ou mamutes em argila, trespassando-os com dardos. O historiador Edward Burns já sugeriu que talvez encantamentos e cerimônias acompanhassem a execução dessas pinturas e imagens e que sua produção se desse enquanto a caça verdadeira estava em andamento.

 

Outros atacam essa tese, afirmando que a hipótese da caça é enfraquecida pelo fato de a maioria dos animais retratados nas pinturas não serem caçados, conforme atestam os depósitos de ossos dos acampamentos humanos daqueles lugares e daquelas épocas. A maior parte da caça era de animais de porte pequeno e médio, que não eram retratados. Então por que desenhavam animais de grande porte, que não eram caçados, sendo caçados, trespassados por dardos? Será que tais animais eram vistos como bestas mitológicas a serem exterminadas?

 

Normalmente animais de grande porte eram os escolhidos para essas crenças, pois temidos. Nas sociedades primitivas que estudou, Campbell reuniu registros de touros, búfalos, assim como de lobos e cobras, que não são animais de grande porte, mas eram igualmente temidos. Quando reproduzidos, geralmente seus tamanhos eram exagerados. Algo parecido com o visto nas cavernas dos Cro-Magnon foi recentemente interpretado como prática religiosa algumas décadas mais antiga. O achado vem de uma caverna escondida nas Colinas Tsodilo, em Botsuana (sul da África), uma espécie de Meca para os habitantes locais, que as chamam de Montanhas dos Deuses. O que foi encontrado? Uma pedra de seis metros de comprimento, com a aparência de uma gigantesca cobra, com pontas de lanças nas suas proximidades. Evidência de comportamento ritual, ainda mais antigo que os dos Cro-Magnon, datado de 70 mil a.C! A descoberta é importante porque, antes dela, pesquisadores haviam identificado sinais de prática ritual com no máximo 40 mil anos, em sítios da Europa. Essa descoberta aponta novamente para os homo sapiens, os que tinham a linguagem mais desenvolvida!

 

Será que a pronúncia de nomes e a reprodução de sons e imagens geraram a idéia de sobrenaturalidade? Percorremos um longo caminho até aqui. O cérebro humano, por meio da fala, desenvolveu a idéia de sobrenaturalidade? Há poder ligado ao conhecimento e à pronúncia de um nome? Segundo Freud, sim! Há, de fato, evidências históricas que corroboram a tese. É algo que vem com o homem desde 70 a.C., pelo menos.

 

A Bíblia, no início do livro de Gênesis, parece traçar as linhas gerais dos primórdios da história humana. Gn 1:1-2 diz que, no princípio, a terra era sem forma e vazia. Provavelmente esse versículo se refere ao que havia antes do advento da consciência. O versículo talvez se reporte à pergunta que o professor de biopsicologia Victor S. Johnston se fazia: como o mundo seria sem a consciência? Não passaria de um “amontoado de matéria e energia sem cores, luz, cheiro, sabor, textura”. A Terra era de fato sem forma e vazia! Em Gn 2:4, a força sobrenatural criadora ganha um nome, YHWH (algo como “Eu sou”). Em seguida, temos o confronto entre sapiens e neanderthalensis, reproduzido na Bíblia, por meio de uma metáfora: a briga entre Caim e Abel. Caim representa os sapiens; Abel, os neanderthalensis. Será?

 

Mas ainda falta desvendar o mistério da concepção de um Deus. Pelo que se percebe da ponte poder-nome e das magias simpáticas dos botsuanos antigos e dos Cro-Magnon, a figura de um Deus não é necessária. Mas as palavras do biólogo Edward O. Wilson, transcritas no início dessa seção, parecem ganhar novo valor: será que a mente humana realmente se desenvolveu para acreditar em Deus? Fazer agora uma ponte entre a relação poder-nome e a concepção de um pai-natureza ou uma mãe-natureza não parece ser tão complicada assim. Mas as razões de Wilson parecem equivocadas. A causa não é a submissão animal, mas a “onipotência de pensamentos” aplicada à natureza.

 

Talvez por isso que as crianças não apresentam esse grau de inteligência simbólica, pois seu nível de linguagem e sociabilidade (troca de idéias) ainda é muito incipiente. Leva-se anos para se conceber um Deus! Assim como o ser humano levou milhões de anos.

 

Analisando a inteligência simbólica, tudo leva a crer que a experiência também foi fundamental para o seu desenvolvimento. Nos anos 4500-3500 a.C. (Neolítico Superior) aparecem, subitamente, os desenhos geometricamente organizados dos estilos de cerâmica de Halaf, Samarra e Obeid. Esse tipo de organização geométrica do espaço era uma coisa nova no mundo e seu aparecimento levanta uma questão fundamental: por que, exatamente quando surgiu um novo estilo de vida de aldeia, surgiu também a arte de formas abstratas geometricamente organizadas? A resposta parece estar no fato de que no período das sociedades de caça anteriores não havia diferenciação das funções sociais, a não ser de acordo com o sexo e a idade – cada indivíduo era tecnicamente um mestre de toda a herança cultural e as comunidades, portanto, eram constituídas de indivíduos praticamente equivalentes – enquanto isso, nas comunidades maiores e mais diferenciadas do Neolítico Superior, já se havia iniciado a tendência para a especialização, que no período seguinte atingiria seu apogeu. No nível de uma sociedade primitiva, ser adulto consistia em ser um homem total. No tipo posterior de sociedade, ser adulto consiste em adquirir, primeiramente, uma certa arte ou habilidade especial e só então a capacidade de suportar ou sustentar a tensão sociológica e psicológica resultante entre a própria pessoa e os outros com treinamento, capacidade e ideais totalmente diferentes, que constituem os outros órgãos necessários do corpo social. A súbita aparição, no Neolítico Superior, de uma forma de arte composta geometricamente, em que elementos díspares eram unidos como um todo harmônico, parece indicar que algum problema psicológico dessa ordem já tivesse começado a aparecer. O que indica a provável origem da multiplicação de deuses (politeísmo) imanentes, reproduzindo a vida social.

 

O politeísmo pode ter de fato surgido assim, o que corrobora a tese de Wilhelm Schmidt de que a primeira manifestação religiosa humana foi monoteísta. Em seu livro “A origem da idéia de Deus”, Schmidt sugere que houve um monoteísmo primitivo antes de homens e mulheres começarem a adorar vários deuses. É uma tese que se coaduna com a idéia de sociedade primitiva/homem total (monoteísmo) e sociedade complexa/homem parcial, especializado (politeísmo).

Inteligência simbólica, fala, onipotência dos pensamentos… a criação de um Deus. Sim, possível… Mesmo assim… não seria dar um salto muito ousado? Ou será que não?

Uma pausa…

Janeiro 22, 2009

Olá a todos! Estou de volta de viagem. Este blog  já tem bastante material para enterrar o “senso comum” cristão. Se você for cristão e for meio preguiçoso para ler, eu lhe recomendaria a leitura, entre todos estes posts, de um: “Satanás e Inferno existem?”. Talvez seja o mais relevante, pois produz um efeito dominó em todo o conhecimento cristão tradicional.

Mas, por enquanto, até trazer material novo, deixo com vocês este vídeo muio interessante. Foi o amigo Arthur, uma das pessoas que conheci aqui neste blog, que me mostrou. São duas partes. Há outras no youtube para quem gostar. Se você é cristão, como vc acha que se sairia se estivesse no lugar de John, o cara ao telefone? Deixem seus comentários aqui, se quiserem.

http://br.youtube.com/watch?v=4PTGoEnDrHU